21 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 21

 

Lúcio Américo (autor)

Segunda-feira, 21 de Outubro de 2024

XXIX Semana do Tempo Comum – Ano B

Ef 2, 1-10; Sal 99; Lc 12, 13-21

 

Estamos na Semana Missionária e os ensinamentos de Jesus continuam a iluminar o nosso ser e agir como discípulos missionários. Os textos de hoje, convidam-nos a abandonar “o modo de ser deste mundo”, que nos submetia “aos desejos da nossa carne, satisfazendo os caprichos dos instintos e da imaginação” e convidam-nos a aceitar Cristo e “a abundante riqueza da Sua graça e da Sua bondade para connosco, em Jesus Cristo.” (primeira leitura). O episódio evangélico é uma excelente ocasião para Jesus nos reorientar segundo os critérios que emanam da misericórdia e do amor manifestados por Deus em Cristo.

 

No Evangelho, uma pessoa na rua aproxima-se de Jesus para Lhe pedir que medeie um conflito familiar. É o irmão mais novo que reclama a herança que lhe pertence ao irmão mais velho que parece tê-la tomado (cf. Lc 12, 13).

 

Jesus recusa-Se a intervir na disputa (cf. Lc 12, 14). Com as Suas palavras, dá a entender que não Lhe foi conferido o poder judicial para resolver a questão, mas sobretudo tem outro argumento que já tinha aparecido no debate com os fariseus: “Vede bem, guardai-vos de toda a avareza” (Lc 12, 15; cf. Lc 11, 39). A cobiça é um indicador de que se vive segundo “o modo de ser deste mundo”. Além disso, como diz São Paulo, “a cobiça do dinheiro é a raiz de todos os males” (1 Tm 6, 10).

 

A cobiça, o amor ao dinheiro, exprime-se no desejo, por vezes compulsivo, de encher-se de coisas, de viver na abundância dos bens (Lc 12, 15b). É aqui que entra em jogo o tema da “vida”. O que é que “assegura” a vida, ou seja, o que é que lhe dá conteúdo, alegria, plenitude, o que é que a sustenta aqui e o que é que nos dá segurança no fim, após a morte biológica?

 

O rico insensato da parábola é um homem que deseja ardentemente “viver”, mas que, na realidade, vai na direcção oposta às suas intenções: vai para a ruína.

 

O homem rico pensa que está a fazer um exercício inteligente quando pensa no que fazer para preservar a sua colheita e ter uma vida segura para o futuro: demolir, construir, armazenar tudo o que tem e viver uma boa vida, seguro de que tem boas reservas. Este é um exercício de planeamento empresarial sustentável. Mas o homem que se julgava esperto na gestão dos seus recursos acabou por fazer uma loucura: esqueceu-se de que a sua vida é um dom e que a “vida boa” é um dom que vem de Deus e não dos bens acumulados.

 

Os critérios de Deus são diferentes:

– Os bens não são para uma só pessoa, mas para serem partilhados. É necessário superar a “avareza”.

– Os bens materiais não “asseguram” a vida; só Deus a pode dar e conservar.

– A vida terrena é limitada e finita, por isso Deus “restituiu-nos à vida com Cristo e com Ele nos ressuscitou e com Ele nos fez sentar nos Céus”. O planeamento mais inteligente que podemos fazer é o do nosso futuro na eternidade de Deus.

 

O bom discípulo é aquele que se enriquece diante de Deus (12, 21), reconhecendo os bens materiais como necessários, mas relativos ao destino último da vida. Tudo é um dom de Deus. Por isso, tornamo-nos ricos “dando”, mesmo “dando na nossa pobreza”, e “fazendo o bem que Deus nos mandou fazer”. Deste modo, o nosso coração torna-se semelhante ao de Deus, com quem queremos viver em comunhão eterna.

20 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 20 - Dia Mundial das Missões

 


Domingo, 20 de Outubro de 2024

XXIX Semana do Tempo Comum – Ano B

Dia Mundial das Missões

Is 53, 2.3.10-11; Sal 32; Heb 4, 14-16; Mc 10, 35-45

 

O tema escolhido pelo Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões é: “Ide e convidai a todos para o banquete” (cf. Mt 22, 9). O banquete é o das núpcias do Filho, d’Aquele que vem para desposar toda a humanidade e que, por isso, quer convidar a todos para o banquete nupcial. Ele diz: “Bebereis o cálice que Eu vou beber e sereis baptizados com o baptismo com que Eu vou ser baptizado.” O que é este baptismo para Jesus senão mergulhar na nossa humanidade desde o nascimento até à Sua paixão e morte, quando dará a Sua vida por muitos? O Esposo foi provado em todos os sentidos e oferece-nos um amor de compaixão, de misericórdia e de libertação (Salmo do dia). Mas, sobretudo, oferece-nos em troca a Sua vida: que maior graça, que maior dom haverá! Somos convidados para um casamento sublime, maravilhoso, misericordioso (segunda leitura)!

 

O Esposo fala de servir-nos, o que não faz parte dos nossos hábitos nupciais. Ele é o servo que foi esmagado pelo sofrimento e que vai reclamar a multidão dos Seus irmãos e irmãs em humanidade (primeira leitura). Assim, no menu do banquete, Ele oferece-Se para nos servir a salvação, nada menos. O Seu sacrifício, oferecido na Sagrada Eucaristia, é uma graça que cura a nossa humanidade ferida. Sim, esperamos d’Ele a nossa vida nova, canta o Salmo, que o Seu amor esteja sobre nós, Ele é a nossa esperança. Convidemos a todos para o banquete da Eucaristia, para as núpcias do Cordeiro: esta é a nossa missão universal, ad gentes, a todos os povos. Na sua mensagem para hoje, o Papa Francisco diz-nos: “Enquanto o mundo propõe os vários «banquetes» do consumismo, do bem-estar egoísta, da acumulação, do individualismo, o Evangelho chama a todos para o banquete divino onde reinam a alegria, a partilha, a justiça, a fraternidade, na comunhão com Deus e com os outros. Temos esta plenitude de vida, dom de Cristo, antecipada já agora no banquete da Eucaristia, que a Igreja celebra por mandato do Senhor e em Sua memória. Por isso o convite ao banquete escatológico, que levamos a todos na missão evangelizadora, está intrinsecamente ligado ao convite para a mesa eucarística, onde o Senhor nos alimenta com a Sua Palavra e com o Seu Corpo e Sangue” (Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2024).

 

Olhemos para a vida de uma mulher baptizada para ver o que significa receber a graça de servir os nossos entes queridos, até ao ponto de beber o cálice do sofrimento e do sacrifício. O Papa Francisco dá-nos o exemplo de Josefina Bakhita, do Sudão: “Nascida no Darfur – o martirizado Darfur! – em 1869, foi raptada da sua família com sete anos e feita escrava. [...] Teve oito donos, um vendia-a a outro. Os sofrimentos físicos e morais que padeceu na infância deixaram-na sem identidade. Sofreu maldades e violências: no seu corpo trazia mais de cem cicatrizes. Mas ela própria testemunhou: “Como escrava, nunca desesperei, porque sentia uma força misteriosa que me sustentava”. [...] Qual é o segredo de Santa Bakhita? Sabemos que muitas vezes a pessoa ferida, por sua vez, fere; o oprimido torna-se facilmente opressor. No entanto, a vocação dos oprimidos é libertar-se a si próprios e aos seus opressores, tornando-se restauradores de humanidade. Só na debilidade dos oprimidos se pode revelar a força do amor de Deus, que liberta ambos. Santa Bakhita exprime muito bem esta verdade.

 

“Um dia, o seu tutor dá-lhe um pequeno crucifixo, e ela, que nunca tinha possuído nada, conserva-o ciosamente como um tesouro. Fitando-o, experimenta uma libertação interior, porque se sente compreendida e amada e, portanto, capaz de compreender e amar: este é o início. [...] Com efeito, dirá: “O amor de Deus sempre me acompanhou de modo misterioso... O Senhor amou-me tanto: é preciso amar todos... É preciso compadecer-se!”. Esta é a alma de Bakhita! Na verdade, com-padecer significa tanto padecer com as vítimas de tanta desumanidade presente no mundo, como também compadecer-se de quem comete erros e injustiças, não justificando, mas humanizando. Esta é a carícia que ela nos ensina: humanizar! Quando entramos na lógica da luta, da divisão entre nós, dos maus sentimentos, uns contra os outros, perdemos a humanidade. E muitas vezes pensamos que precisamos de humanidade, que devemos ser mais humanos. E esta é a tarefa que Santa Bakhita nos ensina: humanizar, humanizar-nos a nós mesmos e humanizar os outros.

 

“Santa Bakhita, que se tornou cristã, é transformada pelas palavras de Cristo, que meditava diariamente: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!» (Lc 23, 34). [...] Podemos dizer que a vida de Santa Bakhita se tornou uma parábola existencial do perdão. Como é bom dizer de uma pessoa: “Foi capaz, foi sempre capaz de perdoar”. [...] O perdão libertou-a. O perdão recebido, primeiro através do amor misericordioso de Deus, e depois o perdão oferecido, fizeram dela uma mulher livre, alegre, capaz de amar.

 

“Bakhita pôde viver o serviço não como escravatura, mas como expressão do dom livre de si. E isto é muito importante: fez-se voluntariamente serva – foi vendida como escrava – e em seguida escolheu livremente fazer-se serva, carregar sobre os seus ombros os fardos dos outros!” (Catequese 22. A paixão pela evangelização).

 

Por fim, o apelo a beber o cálice e a dar a vida pode convidar os discípulos missionários a dar a vida por Cristo. São alimentados no banquete da Eucaristia e chamados a conformar a sua vida a este mistério de amor nupcial. Porque Jesus deu a Sua vida por nós, eles podem dar a sua vida por amor a Ele e aos seus entes queridos. Eis como explica o Papa Francisco, inspirado no martírio de São Lourenço: “Santo Agostinho realça frequentemente esta dinâmica de gratidão e de reciprocidade gratuita do dom. Eis, por exemplo, o que ele pregava por ocasião da festa de São Lourenço: «São Lourenço era diácono da Igreja de Roma. Ali era ministro do sangue de Cristo e onde, pelo nome de Cristo, derramou o seu sangue. O beato apóstolo João expôs claramente o mistério da Ceia do Senhor, dizendo: “Cristo deu a Sua vida por nós. Também nós devemos dar a nossa vida pelos irmãos” (1 Jo 3, 16). Irmãos, Lourenço compreendeu tudo isto. Compreendeu-o e pô-lo em prática. E retribuiu verdadeiramente o que tinha recebido naquela mesa. Amou Cristo na sua vida, imitou-o na sua morte» (Disc. 304, 14; PL 38, 1395-1397). Era assim que Santo Agostinho explicava o dinamismo espiritual que animava os mártires” (Catequese 11. A paixão pela evangelização).

 

O Concílio Vaticano II recorda-nos que “o martírio, pelo qual o discípulo se torna semelhante ao mestre, que livremente aceitou a morte para salvação do mundo, e a Ele se conforma no derramamento do sangue, é considerado pela Igreja como um dom insigne e prova suprema de amor” (Const. Lumen gentium, 42). O Papa Francisco explica: “À imitação de Jesus e com a Sua graça, os mártires transformam a violência de quem rejeita o anúncio, em ocasião suprema de amor, que vai até ao perdão dos próprios algozes. Isto é interessante: os mártires perdoam sempre os algozes. Estêvão, o primeiro mártir, morreu rezando: “Senhor, perdoa-lhes, não sabem o que fazem!”. Os mártires rezam pelos algozes.

 

“Embora só alguns sejam chamados ao martírio «todos, porém, devem estar dispostos a confessar a Cristo diante dos homens e a segui-l’O no caminho da cruz no meio das perseguições, que nunca faltarão à Igreja» (ibid., 42). Mas, a perseguição é algo daquela época? Não, não: de hoje. Hoje há perseguições de cristãos no mundo, muitas, tantas! Há mais mártires hoje do que nos primeiros tempos. Os mártires mostram-nos que cada cristão é chamado ao testemunho da vida, até quando não chega à efusão do sangue, fazendo de si mesmo um dom a Deus e aos irmãos, à imitação de Jesus” (Catequese 11).

 

Neste Dia Mundial das Missões, respondamos ao apelo a todos os baptizados para servir e dar a vida. Convidamos todos a descobrir a riqueza da nossa espiritualidade cristã e do nosso banquete eucarístico, onde Jesus dá a sua vida por nós e nos dá a graça de fazer o mesmo pelos outros. Rezemos pela grande missão universal dos baptizados e apoiemo-la concretamente através da nossa oferta, inteiramente dedicada à Propagação da Fé, a Obra pontifícia que ajuda as jovens Igrejas. Permaneçamos firmes na afirmação da nossa fé, que tem como modelo o Servo e Sumo Sacerdote Jesus, que hoje dá de novo a Sua vida no banquete da Sua Eucaristia. Convidemos todos para este banquete do verdadeiro alimento, o pão da vida eterna!

 

Por fim, mesmo que sejamos tentados a ficar no banquete, a ficar com Jesus, há sempre o apelo à missão. Ide, diz Cristo. “Mas de igual modo não há estar sem ir. Na realidade, seguir Cristo não é algo intimista: sem anúncio, sem serviço, sem missão, a relação com Jesus não cresce. Observemos que no Evangelho o Senhor envia os discípulos antes de ter completado a Sua preparação: pouco depois de os ter chamado, já os envia! Isto significa que a experiência da missão faz parte da formação cristã. Então, recordemos estes dois momentos constitutivos para cada discípulo: estar com Jesus e ir, envidados por Jesus” (Catequese 4).

 

Porquê convidar, porquê anunciar este banquete a todos? O Papa Francisco continua: “Porquê anunciar. A motivação está em cinco palavras de Jesus, que nos fará bem recordar:

«Recebestes de graça, dai de graça!» (v. 8). São cinco palavras. Mas porquê anunciar? Porque

recebi de graça e devo dar de graça. O anúncio não começa por nós, mas pela beleza do que

recebemos de graça, sem mérito: encontrar Jesus, conhecê-l’O, descobrir que somos amados e

salvos. É um dom tão grande que não podemos guardá-lo para nós, sentimos a necessidade de o

irradiar; mas com o mesmo estilo, ou seja, na gratuidade. Em síntese: temos um dom, por isso

somos chamados a fazer-nos dom; recebemos um dom e a nossa vocação consiste em nos tornarmos dom para os outros; em nós há a alegria de ser filhos de Deus, e ela deve ser partilhada com os irmãos e irmãs que ainda não o conhecem! Esta é a razão do anúncio. Ir e anunciar a alegria daquilo que recebemos” (Catequese 4. A paixão pela evangelização).

19 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 19

 


Sábado, 19 de Outubro de 2024

XXVIII Semana do Tempo Comum – Ano B

Memória dos Santos João de Brébeuf e Isaac Jogues, sacerdotes, e companheiros, mártires

Ef 1, 15-23; Sal 8; Lc 12, 8-12

 

Depois do discurso contra os fariseus e os rabinos, Lucas dá-nos uma instrução sobre o comportamento correcto dos discípulos no mundo.

 

Para compreender melhor o Evangelho de hoje, é útil situarmo-nos no contexto. Os discípulos, conhecidos como “amigos de Jesus”, vão em breve ser perseguidos. Mas não precisam de ter medo de nada, nem dos inimigos nem do martírio, a não ser de Deus: “Não tenhais medo de.... não deveis ter medo de...” (Lc 12, 4-5), “nem um deles fica esquecido diante de Deus” (Lc 12, 6).

 

“A todo aquele que Me tiver reconhecido diante dos homens também o Filho do homem o reconhecerá diante dos Anjos de Deus. Mas quem Me tiver negado diante dos homens será negado diante dos Anjos de Deus.”

 

Deus não abandonará os Seus discípulos perante a perseguição. Esta convicção é sublinhada na passagem que lemos hoje:

 

1. O Pai Criador sustentá-los-á, tal como cuida da vida dos seus pardais (12, 6-7);

2. O Filho sustentá-los-á na hora do juízo final (12, 8-9);

3. O Espírito Santo ajudá-los-á, pondo nos seus lábios as palavras de que necessitarão quando forem interrogados perante o tribunal (12, 11-12).

 

Só há um “mas”: se Deus Se compromete com o discípulo perseguido, o discípulo deve também estar suficientemente comprometido para não recuar: deve “reconhecer” e não “negar” que é amigo de Jesus (12, 8-9).

 

Por outro lado, quem vê no Jesus terreno apenas um homem e ofende o “Filho do Homem” (= Messias) pode ser perdoado: “Todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem

será perdoado” (Lc 12, 10a); cf., por exemplo, o relato da Paixão: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”; Lc 23, 34).

 

O problema grave é fechar-se definitivamente à acção do Espírito Santo manifestada em Jesus e nos discípulos e perder-se para sempre: “Quem tiver blasfemado contra o Espírito Santo não será perdoado” (Lc 12, 10b).

 

Através da profissão de fé dos discípulos, o Espírito Santo testemunhará sempre Jesus ressuscitado, levantado pelo Pai das profundezas da morte, e conduzirá cada pessoa à salvação. É o Espírito Santo que dá a cada um o poder de se arrepender e de perdoar (cf. Act 2, 32-41; 3, 12-26 e 5, 30-32).

 

Vejamos a consequência para o perseguidor: precisamente porque o Espírito Santo actua através do anúncio apostólico de Jesus, aquele que rejeita o “testemunho” dos discípulos não pode ser perdoado, porque desprezou a possibilidade do perdão. Trata-se de uma “blasfémia contra o Espírito Santo”, que faz dele um “adversário de Deus” (cf. Act 5, 39).

 

Devemos rezar, como São Paulo, para que o anúncio seja acolhido como é, e que “Ele ilumine os olhos do vosso coração, para compreenderdes a esperança a que fostes chamados, os tesouros de glória da sua herança entre os santos e a incomensurável grandeza do seu poder para nós os crentes. Assim o mostra a eficácia da poderosa força que exerceu em Cristo.”

18 outubro 2024

Mensagem do Bispo da Guarda para o Dia Mundial das Missões 2024


 Vamos viver, no próximo domingo, mais um Dia Mundial das Missões.

Com esta data e esta celebração, lembramos a responsabilidade missionária que é de toda a Igreja e de todos os seus membros.

Todos os cristãos lembram, particularmente neste dia, a sua vocação de discípulos missionários e procuram ver como é que a devem cumprir no seu dia a dia.

Por outro lado, são também convidados a lembrar aqueles e aquelas que um dia responderam ao chamamento do Senhor para deixarem os seus ambientes de conforto e partirem para anunciar, em territórios e culturas muito distintos dos seus, a novidade de Jesus e do Evangelho.

E aqui paramos diante da realidade da nossa Diocese da Guarda, que tem na sua história importantes marcas de entusiasmo pela missão “ad gentes”, isto é, pela ação de muitos dos seus filhos junto de populações e culturas onde o anúncio de Cristo e do Evangelho continuam a ser novidade. Ainda hoje, graças a Deus, são muitos que partiram das nossas paróquias, aldeias, vilas e cidades e continuam em missão “ad gentes”. Louvemos a Deus por eles e elas e pedimos ao Senhor desta importante messe que continue a recrutar entre nós operários para a mesma messe.

Este Dia Mundial das missões lembra-nos também o apelo de Deus para colaborarmos com a nossa ajuda material em favor das iniciativas missionárias tomadas em territórios muito distintos dos nossos. E para isso o Papa tem ao seu dispor as Obras Missionárias Pontifícias que lembram a todos os cristãos essa responsabilidade missionária. Para essa mesma finalidade são destinados os ofertórios de todas as assembleias do próximo domingo, Dia Mundial da Missões.

A generosidade dos nossos fiéis e das nossas comunidades, nestes ofertórios para as missões, tem sido nota muito positiva e certamente que este ano vai continuar a sê-lo.

A Meditação que o Santo Padre nos faz, na mensagem para este Dia Mundial das Missões parte da parábola do banquete nupcial que um rei prepara para seu filho (Mateus, 22, 1-14).

Perante a indisponibilidade dos convidados, ele manda os seus emissários pelas ruas e encruzilhadas da cidade, com o encargo de chamar a todos para esse banquete.

E sublinha o Papa, no seu comentário, que todos os discípulos de Cristo recebem o mesmo encargo de partirem  em missão, saindo das suas zonas de conforto.

E de partirem para convidar a todos sem distinção de nacionalidade, raça, cultura e mesmo comportamento moral.

O convite é para o Banquete do Reino, esse Reino que Jesus inaugurou com a sua pregação a sua vida e terá pleno cumprimento na Eterna Bem-aventurança, que a Eucaristia simboliza e antecipa.

Também estamos a viver, por convite do mesmo Papa Francisco, um ano especialmente dedicado à oração que prepara o Jubileu Ordinário de 2025. E neste Dia Mundial das Missões ele convida-nos expressamente para participarmos na Missa  e em geral a fazermos oração pela missão evangelizadora de toda a Igreja e para que todos os discípulos de Cristo sejam verdadeiramente missionários da esperança e peregrinos a caminho da vida em Deus; vida que não tem fim e está simbolizada neste banquete nupcial que um rei prepara para seu filho.

Com o Papa, invocamos a intercessão de Maria Santíssima, Rainha das Missões, pela responsabilidade missionária da igreja e de todos os discípulos de Cristo, a começar por aqueles e aquelas que deixaram a sua terra e partiram para ambientes distantes; ela que conseguiu de Jesus o milagre de Caná, com o vinho novo, a favor dos esposos e seus convidados. 

17.10.2024

+Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda


Outubro Missionário - Dia 18

 Sexta-feira, 18 de Outubro de 2024

XXVIII Semana do Tempo Comum – Ano B

Festa de São Lucas, Evangelista

2 Tm 4, 10-17b; Sal 144; Lc 10, 1-9

Celebramos hoje a festa de São Lucas, evangelista, a quem é atribuído o Evangelho que nos tem acompanhado quase constantemente nestes últimos dias. É importante recordar que, nos dois livros dedicados a Teófilo (theo-philos: amigo de Deus), Lucas articula as duas partes da mesma obra sobre a Ascensão de Jesus (Lc 24, 50-53; Heb 1, 6-11). A ascensão significa simultaneamente o culminar do reinado de Jesus e o envio missionário dos discípulos “até aos confins da terra”. A redacção do Evangelho (e dos Actos dos Apóstolos) é uma forma concreta de missão.

Com base no texto evangélico de hoje, destacaremos a série de sete imperativos de um missionário (na verdade, teríamos dez se acrescentássemos os três que aparecem nos versículos 10-12, que não leremos hoje). Deste modo, compreenderemos um pouco melhor a figura do missionário e compreender-nos-emos também a nós próprios como discípulos missionários. Vejamos:

– “Pedi” (Lc 10, 2). O missionário é, antes de mais, uma pessoa que reza. Como acontece desde o Pentecostes, e como é confirmado em Actos 13, 1-3, a missão começa com uma comunidade que reza e se reveste do Espírito para enviar aqueles que o Senhor escolhe de entre eles. No entanto, os 72 aperceberam-se de que, embora aparentemente fossem muitos, na realidade não eram suficientes: “os trabalhadores são poucos”.

 – “Ide” (Lc 10, 3). A atitude é a de estar sempre “em caminho”. O missionário tem consciência de entrar num mundo cheio de perigos, que a sua vida estará sempre ameaçada: “como cordeiros para o meio de lobos”. O missionário não subjuga os outros, é um homem de paz. Como recorda o Papa Francisco na sua Mensagem para o Dia Mundial das Missões deste ano de 2024: “Ao proclamar ao mundo «a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado» (Exortação Apostólica. Evangelii gaudium, 36), os discípulos-missionários fazem-no com alegria, magnanimidade, benevolência, que são fruto do Espírito Santo neles (cf. Gal 5, 22); sem imposição, coerção nem proselitismo; mas sempre com proximidade, compaixão e ternura, que reflectem o modo de ser e agir de Deus.”

– “Não leveis...” (Lc 10, 4a). O missionário viaja desapegado de tudo. Há quatro coisas que são necessárias para uma viagem e ele desprende-se delas: dinheiro, uma mochila para o lanche e uma muda de roupa, e sandálias para as longas caminhadas em terrenos pedregosos. Isto não significa que ele fique “sem rede”, a sua segurança reside na sua fé em Deus que não o abandona e que, como Pai, provê às suas necessidades. Isto é tão real que, quando Jesus lhes pergunta: “Quando vos enviei sem saca, sem bolsa e sem sandálias, faltou-vos alguma coisa?». Eles disseram: «Nada»” (Lc 22, 35).

Uma certeza que também foi sentida por Paulo e que é recordada na primeira leitura de hoje: “O Senhor esteve a meu lado e deu-me força, para que, por meu intermédio, a mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada e todos os pagãos a ouvissem” (2 Tm 4, 10).

– “Não vos demoreis a saudar alguém pelo caminho” (Lc 10, 4b), indica que o missionário viaja com liberdade, nada e ninguém o deve distrair de responder à urgência da missão.

– “Dizei” (Lc 10, 5). O anúncio do Evangelho começa com a saudação da paz: “Shalom leká” (cf. Jo 6, 23; Lc 24, 36). Não se trata de um formalismo vazio, mas de um dom que pode ser aceite ou rejeitado. Este dom, que os “amantes da paz” sabem acolher, está ligado à vinda da salvação. Esta paz é o dom pascal de Cristo (Lc 24, 36; ver também 2, 14.29; 19, 42; Act 10, 36). Um dom é recebido só por aqueles que estão abertos a ele.

“O anúncio do Evangelho começa sempre com a saudação de paz; e a paz coroa e cimenta em cada momento as relações entre os discípulos. A paz é possível, porque o Senhor venceu o mundo e a sua permanente conflitualidade, «pacificando pelo sangue da Sua cruz (Col 1, 20)” (EG, 229).

– “Ficai” (Lc 10, 7). O missionário não vai em busca de conforto, por isso é aconselhado a não andar de casa em casa, mas a ficar (Lc 10, 7) e a comer e a beber do que há (Lc 10, 8b).

“Ficar” significa entrar profundamente na realidade e no tecido relacional da casa que se está a evangelizar, para que o Reino de Deus possa penetrar a partir de dentro (como fez Jesus com os discípulos de Emaús: “Fica connosco... entrou para permanecer com eles”, Lc 24, 29; ou como fez Paulo em casa de Lídia, Act 16, 15). O missionário deve saber aceitar a hospitalidade, que para ele é sinal do amor de um Deus que dá. É preciso não só saber dar, mas também saber receber.

– “Curai” (Lc 10, 9a). A acção precede a palavra. O missionário exprime-se primeiro com actos e depois com palavras que ajudam a compreender o que aconteceu. No Evangelho de Lucas há muitas curas que tornam visível o Reino (cf. 11, 20). Nelas podia ver-se a vinda do Messias. Agora Jesus confia esta tarefa aos Seus missionários.

– “Dizei” (Lc 10, 9b). Tal como Jesus itinerante anuncia por toda a parte “a boa nova do Reino de Deus” (Lc 4, 43), o missionário é arauto e testemunha da entrada definitiva de Deus na história. Também a missão silenciosa das obras tem necessidade da palavra, como dizia João Paulo II: “Não pode haver verdadeira evangelização sem o anúncio explícito de Jesus como Senhor. O Concílio Vaticano II e o Magistério posterior, refutando certa confusão sobre a verdadeira natureza da missão da Igreja, tem repetidamente sublinhado a primazia do anúncio de Jesus Cristo em qualquer trabalho de evangelização” (Ecclesia in Asia, 19).

Recordemos que o Evangelho é o maior dom que nós, cristãos, temos. Por isso, devemos partilhá-lo com todos os homens e mulheres que procuram uma razão para viver.

Bendigamos o Senhor através do evangelista Lucas.

“Esta é a nova aliança que Deus fez com Lucas (cf. Jer 31, 31).

Pôs no seu coração a Palavra viva e eterna (Jer 31, 33).

Separou-o dos gregos para que ele fosse e desse fruto (cf. Jo 15, 16).

Lucas, o médico predilecto (cf. Col 4, 14),

o irmão louvado por todas as Igrejas

pelo seu anúncio do Evangelho (cf. 2 Cor 8, 18).

Judeu ou grego, já não há distinção,

porque a Escritura diz: “Quem acredita n'Ele não será envergonhado”.

Ele próprio é o Senhor de todos, rico para todos os que O invocam.

Ele veio procurar e salvar o que estava perdido (cf. Lc 19, 10).

Virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul,

para participarem no banquete do Reino dos Céus (cf. Lc 13, 29)”.

 

(Preparado pelo Mosteiro Apostólico de Piedra Blanca)

17 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 17

 




Quinta-feira, 17 de Outubro de 2024

XXVIII Semana do Tempo Comum – Ano B

Memória de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir

Ef 1, 1-10; Sal 97; Lc 11, 47-54

Hoje celebramos a memória de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir, e as leituras permitem-nos abordar o mistério da vida do profeta-mártir, do apóstolo-mártir. Embora o Evangelho seja uma continuação do que lemos ontem, hoje o tom dramático é mais acentuado, de tal modo que, no final, Jesus é atacado pelos escribas e fariseus que o tinham convidado para jantar.

Recordemos o contexto: Jesus tinha sido convidado para comer em casa de um fariseu e o Seu anfitrião parecia surpreendido pelo facto de Jesus não ter feito as abluções rituais, a lavagem antes de comer. Este jantar parece ser narrado tendo em mente o chamado simpósio grego, ou seja, uma refeição solene em que os convidados discutiam questões filosóficas enquanto comiam e bebiam. O narrador de Lucas utiliza este cenário tão familiar aos seus leitores.

“Ai de vós, porque edificais os túmulos dos profetas, quando foram os vossos pais que os mataram.” Esta acusação de perseguir e matar os profetas, que são a consciência de todo um povo, atravessa o Evangelho de Lucas a partir do Sermão da Montanha (Lc 6, 22-23) e é retomada nos Actos dos Apóstolos (Act 7, 52). Jesus identifica-Se como profeta (Lc 4, 24; 13, 33-34).

A acusação de construir túmulos para os profetas é um insulto que Jesus esclarece imediatamente, afirmando que a geração daquele tempo não é melhor do que a anterior e apenas dá continuidade à matança sistemática dos profetas e mensageiros de Deus. Precisamente por causa dessa continuidade, a construção de túmulos, monumentos e lápides em honra dos profetas assassinados acaba por ser uma forma de celebrar a sua morte violenta e, portanto, de a aprovar.

“É por isso que a Sabedoria de Deus disse: ‘Eu lhes enviarei profetas e apóstolos; e eles hão-de matar uns e perseguir outros’. Mas Deus vai pedir contas a esta geração do sangue de todos os profetas, que foi derramado desde a criação do mundo.” Jesus relata uma afirmação da sabedoria de Deus; o curioso é que a frase citada não se encontra nem no Antigo Testamento nem nos outros escritos do tempo. Pode ser visto como um convite a identificar o próprio Jesus como essa sabedoria personificada.

Jesus prediz então a morte de alguns dos Seus missionários, incluindo a Sua própria. Mas essas mortes, diz o Senhor, não serão esquecidas, nem ficarão impunes; pelo contrário, a responsabilidade e as consequências dos danos causados devem ser assumidas. Como diria anos mais tarde Santo Inácio de Antioquia: “Eu sou o trigo de Deus: é preciso que ele seja triturado pelos dentes das feras a fim de ser considerado puro pão de Cristo.” A justiça divina, que transforma o mal em bem, alcançará todos os actos de perseguição e de assassínio cometidos ao longo da história.

Deste modo, Jesus faz-nos ver uma relação entre o comportamento do povo de Israel, que rejeita os profetas e os mensageiros de Deus, e o que Lhe acontecerá a Ele em Jerusalém, depois aos Seus apóstolos e, mais tarde, a tantos missionários no mundo, até hoje.

“Ai de vós, doutores da lei, porque tirastes a chave da ciência.” Jesus, em nome de Deus, exprime a Sua indignação profética contra este grupo de fariseus, porque o seu comportamento revela uma interpretação errada da lei, e tudo isto apesar do facto de o seu papel no meio do povo ser precisamente o de guias, e, no entanto, eles revelaram-se como líderes corrompidos para aqueles que os escutavam. Tinham “a chave da porta da ciência”, mas parece que não entraram nem tenham deixado entrar ninguém.

Nós, missionários, não podemos ficar com o que recebemos porque, como ouvimos na Carta aos Efésios: “Segundo a riqueza da Sua graça, que Ele nos concedeu em abundância, com plena sabedoria e inteligência. Ele deu-nos a conhecer o mistério da Sua vontade.”

“Quando Jesus saiu dali, os escribas e os fariseus começaram a persegui-l’O terrivelmente e a provocá-l’O com perguntas sobre muitas coisas, armando-Lhe ciladas, para O surpreenderem nalguma palavra da sua boca.”

Tudo acaba em hostilidade aberta. Jesus, que é claramente amigo dos cobradores de impostos e dos pecadores, dos proscritos, dos impuros, não se recusa a comer com um homem que pertence a um dos grupos mais intransigentes na interpretação da lei. No entanto, faz-lhes ver como se desviaram. Construíram uma religião de boas práticas, mas sem alma libertadora, e refugiaram-se num compromisso exterior formal e inflexível, mas sem misericórdia nem compaixão. Assim, sufocaram o Espírito que sopra onde quer, transformando a religião num escrupuloso aparelho de prescrições. Perderam o núcleo da sua missão, que é explicar e interpretar as Escrituras. Mostraram-se maus mestres, incapazes de compreender o sentido das próprias Escrituras e de transmitir aos outros o desígnio do amor de Deus nelas revelado, pelo menos de reconhecer o Enviado do Pai, Jesus de Nazaré, e afastaram-se do desígnio projectado por Deus que, como diz S. Paulo, é “instaurar todas as coisas em Cristo, tudo o que há nos Céus e na terra” (Ef 1, 10).

16 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 16

 


Quarta-feira, 16 de Outubro de 2024

XXVIII Semana do Tempo Comum – Ano B

Gl 5, 18-25; Sal 1; Lc 11, 42-46

 

No Evangelho, Jesus dirige-Se aos chefes, aos animadores da experiência religiosa de Israel. O Seu modo de falar é profético e, para isso, utiliza as “ameaças” que são oráculos de desventura e, portanto, indicam comportamentos que conduzem à ruína. São avisos, tal como Paulo indica aos Gálatas, na primeira leitura, as “obras da carne” que os afastam do Reino de Deus.

 

Estes vícios fazem perder a vida do Espírito e contrastam com os frutos esperados de uma vida espiritual, a saber, “a caridade, a alegria, a paz, a paciência, a benignidade, a bondade, a

fidelidade, a mansidão e a temperança”. Vejamos agora cada um dos comportamentos e atitudes que Jesus quer corrigir para que sejam reorientados em harmonia com o Reino de Deus: “Ai de vós, fariseus, porque pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as hortaliças, mas desprezais a justiça e o amor de Deus!” (Lc 11, 42a). Jesus não está a atacar a lei em si (cf. Dt 12, 22; Lv 27, 30), mas sim o modo e a razão pela qual o dízimo é exigido. Os fariseus foram demasiado zelosos nas suas exigências e caíram num “pormenor” que os faz perder o verdadeiro sentido do que estão a fazer. Isto leva-os a esquecer o que é importante: o amor de Deus e a justiça para com os seus irmãos.

 

A este propósito, o Papa Francisco recordou-nos a correcta gradualidade no anúncio do Evangelho: “Uma pastoral em chave missionária não está obcecada com a transmissão desarticulada de uma imensidade de doutrinas que se tentam impor à força de insistir. Quando se assume um objectivo pastoral e um estilo missionário, que chegue realmente a todos sem excepções nem exclusões, o anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário. A proposta acaba simplificada, sem com isso perder profundidade e verdade, e assim se torna mais convincente e radiosa” (EG, 35).

 

“Ai de vós, fariseus, porque gostais do primeiro lugar nas sinagogas e das saudações na praça pública!” (Lc 11, 43). Ser líder religioso confere um certo prestígio e pode-se cair no grave perigo de procurar honras ou privilégios. Neste caso, pensa-se em si mesmo, na sua própria imagem, na tentativa de ser visto pelos outros como puros e justos, como pessoas boas. Esta atitude pode fazer-nos perder o rumo da missão e comprometer seriamente o anúncio do Evangelho.

 

Mais uma vez, o Papa Francisco nos ilumina: “A centralidade do querigma requer certas características do anúncio que hoje são necessárias em toda a parte: que exprima o amor salvífico de Deus como prévio à obrigação moral e religiosa, que não imponha a verdade, mas faça apelo à liberdade, que seja pautado pela alegria, o estímulo, a vitalidade e uma integralidade harmoniosa que não reduza a pregação a poucas doutrinas, por vezes mais filosóficas que evangélicas. Isto exige do evangelizador certas atitudes que ajudam a acolher melhor o anúncio: proximidade, abertura ao diálogo, paciência, acolhimento cordial que não condena” (EG, 165).

 

“Ai de vós, porque sois como sepulcros disfarçados, sobre os quais passamos sem o saber!” (Lc 11, 44). Esta é provavelmente uma das advertências mais importantes. Faz eco da exigência de pureza dos túmulos de Números 19, 16, onde tocar num túmulo era motivo de impureza, pelo que tinham de ser caiados de modo a se tornarem mais visíveis. A interpretação de Lucas é inédita: os sepulcros são os líderes religiosos que se destacam (“branqueados” é uma referência à visibilidade mencionada no segundo “ai!”), e as pessoas que os rodeiam constantemente para ouvir os seus ensinamentos são elas que se tornam impuras, porque, em contacto com eles, são contaminadas pelos seus vícios sem se aperceberem. Um evangelista que não é fiel ao Evangelho pode distorcer a mensagem e desviar os outros.

 

“Ai de vós também, doutores da lei, porque impondes aos homens fardos insuportáveis e vós próprios nem com um só dedo tocais nesses fardos!” (Lc 11, 46). Os doutores da Lei, a quem se dirige esta última “ameaça”, eram conhecidos pela sua interpretação rigorosa da Lei, à qual acrescentavam certas obrigações sem justificação. Mas, por seu lado, conseguiam astutamente não fazer o que mandavam fazer. Este “aviso” chama a atenção para a necessidade de coerência e de empenhamento pessoal naquilo que pregamos.

 

Tomemos hoje a peito a admoestação de S. Paulo: “Se vivemos pelo Espírito, caminhemos também segundo o Espírito.”

15 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 15

 


Terça-feira, 15 de Outubro de 2024

XXVIII Semana do Tempo Comum – Ano B

Memória de Santa Teresa de Jesus, Virgem e Doutora da Igreja

Gl 5, 1-6; Sal 118; Lc 11, 37-41

 

As palavras dirigidas aos fariseus são fortes, desafiadoras e devem ser escutadas com particular atenção. Escutemo-las de novo: “Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e perversidade. Insensatos! Quem fez o interior não fez também o exterior? Dai antes de esmola o que está dentro e tudo para vós ficará limpo.” O que é que deve ser purificado? O interior ou o exterior? Por dentro estão cheios de cobiça e maldade... O problema não é o exterior, a aparência, mas o nosso coração, todo o mal que nele podemos esconder: a avareza, a maldade e todo o tipo de maus pensamentos.

 

De facto, o Senhor convida-nos a reflectir sobre a nossa hipocrisia, as nossas aparências, tudo o que fazemos para nos tornarmos belos aos olhos dos outros, enquanto o nosso coração não corresponde ao que apresentamos no exterior. Jesus convida-nos a cuidar do nosso coração, daquilo que nos torna profundos no nosso ser. Como sempre, o Senhor exorta-nos a uma conversão radical. Aqui, propõe-nos que demos em esmola tudo o que temos e tudo ficará limpo para nós. Deixaremos de ter o desejo de possuir mais e mais, de acumular riquezas ou de parecer belos, correndo o risco de sermos egocêntricos.

 

O Senhor pede-nos, portanto, uma purificação, mas não uma purificação qualquer. Não se trata de formalismo legal, de abluções repetidas, de lavagens profundas, nem mesmo de nos afastarmos dos pecadores que parecem exalar impureza. Não se trata de evitar sepulturas e impurezas aleatórias. A única purificação é a interior, explica Jesus: nada do que vem do exterior pode tornar o homem impuro, porque é do interior, do coração dos homens, que emergem os maus desígnios (Mc 7, 14-23). Trata-se de um ensinamento novo e libertador, que os discípulos têm dificuldade em apreender, em compreender. Sem dúvida que, para cada um de nós, é mais fácil lavar o exterior do que limpar o interior, os nossos pensamentos, o nosso coração e todo o mal que ele pode conter, todo o mal que muitas vezes desejamos aos outros.

 

O que aqui é posto em evidência é a simplicidade da fé e do amor, a direcção para a qual os discípulos devem gravitar, ou seja, o coração puro: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8). Esta pureza é a da essência da pessoa, encerrada na palavra espírito. Os pobres de coração são também os pobres em espírito. É o núcleo e o todo da pessoa. Pensemos no Salmo 34, 19 onde está escrito: “O Senhor está perto dos corações atribulados e salva os que estão de espírito abatido.” Estes pobres fazem parte da grande família dos que passaram por provações materiais e espirituais e só podem contar com a ajuda do Senhor. Cada um deles pode dizer com confiança: “Sou pobre e necessitado, o Senhor cuida de mim” (Sl 40, 18). A evangelização dos pobres, com milagres, é o sinal dado por Jesus aos enviados de João Baptista, para que reconheçam que Ele é o Messias esperado (cf. Mt 11, 5). O pobre espera a salvação do Senhor e, confiante, espera e executa a vontade do seu Senhor. A sua alma responde aos Seus pedidos e às Suas ordens. Ele está confiante de que o seu grito e a sua oração chegarão aos ouvidos do Senhor, que o salvará segundo a sua promessa. Ele já pode cantar o louvor do Senhor.

 

Cristo libertou-nos para que sejamos livres, explica o apóstolo Paulo. Por isso, somos convidados a mantermo-nos firmes. “Permanecei, pois, firmes e não vos deixeis sujeitar de novo a um jugo de servidão” (Gal 5, 1), explica o apóstolo. Para ver Deus, para apresentar-se a Ele, já não no Seu templo de Jerusalém, mas no Seu Reino, a pureza moral já não é suficiente. É necessária a presença activa do Senhor na vida quotidiana; é necessário o amor, a presença de Deus-Amor; então o homem será puro em todos os sentidos. De facto, Jesus explica aos Seus apóstolos: “Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos disse” (Jo 15, 3). “Quem tomou banho não tem necessidade de lavar senão os pés, pois está inteiramente puro” (Jo 13, 10).

 

Falando de alimentos, Pedro é levado a tirar uma tripla conclusão: já não há alimentos impuros (cf. Act 10, 15; 11,9); os próprios incircuncisos já não estão contaminados (cf. Act 10, 28); é pela fé que Deus purifica agora o coração dos gentios (cf. Act 15, 9). Paulo esclarece a questão da pureza, afirmando que, para o cristão, “nada é impuro em si mesmo” (Rm 14, 14). Cessando o domínio da antiga Lei, as observâncias da pureza tornam-se “prescrições estéreis”, das quais Cristo nos libertou (cf. Gal 4, 3.9; Col 2, 16-23). Cristo entregou-Se pela Igreja, para a santificar através da purificação com o banho de água (cf. Ef 5, 26). Não se trata de uma purificação exterior, porque as águas do baptismo libertam-nos de toda a mancha, associando-nos a Jesus Cristo ressuscitado (1, 3.21). De facto, somos purificados pela esperança em Deus que, por Cristo, nos fez filhos adoptivos (cf. 1 Jo 3, 3). Como cristãos, devemos purificar-nos desde já de toda a contaminação do corpo e do espírito para completar a obra da santificação (cf. 2 Cor 7, 1). “Tudo é puro para aquele que é puro” (Tt 1, 15) e agora o que conta diante de Deus é a disposição profunda de um coração regenerado e renovado (cf. 1 Tm 4, 4). A caridade cristã nasce de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé recta (cf. 1 Tm 1, 5). Que alegria servir o Senhor com uma consciência pura (2 Tm 1, 3)! O contrário da impureza é a santidade (1 Ts 4, 7s; Rm 6, 19). De facto, somos convidados a ir ter com Cristo, morto e ressuscitado; é Ele que nos purifica e nos liberta de todo o mal.

 

Como podemos evangelizar se nos afastamos das pessoas que consideramos impuras, pecadoras, contaminadas? Como podemos evangelizar se não vamos ao encontro dos nossos contemporâneos, dos nossos irmãos e irmãs, independentemente das suas convicções religiosas e graus de santidade? Cabe a cada um de nós, discípulos missionários, fazer brotar dos nossos corações puros a justiça e a fé, a caridade e a paz, sem esquecer o dinamismo missionário. O Espírito é-nos dado para avançarmos no caminho da santidade, do amor e da justiça. A Igreja oferece-nos os sacramentos e vários outros meios para seguir o Senhor Jesus. Vós que procurais a justiça através da Lei, se vos separastes de Cristo, perdestes a Graça se não confiais na misericórdia e na ternura de Deus, se não acreditais no Espírito santificador. Discípulos de Cristo, é pelo Espírito e na fé que devemos esperar a justiça esperada e crescer na santidade. Porque, em Cristo Jesus, o que vale não é o facto de se ser circuncidado ou não, mas uma fé que actua pela caridade.

14 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 14


Segunda-feira, 14 de Outubro de 2024

XXVIII Semana do Tempo Comum – Ano B

Gl 4, 22-24.26-27.31-5,1; Sal 112; Lc 11, 29-32

 

No Evangelho de hoje, Jesus pronuncia uma palavra devastadora: “Esta geração é uma geração perversa...”. Se Ele disse isto aos Seus ouvintes há 2000 anos, ainda mais se aplica a nós hoje! As guerras, a exploração da natureza, a persistência da pobreza e da fome em grande parte do mundo, uma economia global injusta... deixam-nos tristes e até deprimidos. E nem nós, católicos, estamos a viver uma fase de optimismo. Há muita incerteza na Igreja sobre como lidar com a mudança. A compreensão do casamento e da família, a protecção da vida por nascer, a dignidade e a inviolabilidade do ser humano até à morte natural, etc. O que antes parecia claro, de repente tornou-se obscuro.

 

Uma Igreja missionária deve enfrentar a realidade. O organismo mundial sofre de muitas doenças. Sem diagnóstico, não há cura. Por isso, é nosso dever contrariar as tentativas de vender o branco pelo preto e o preto pelo branco à luz do Evangelho. Os valores do Evangelho são claros e permitem-nos fazer um julgamento: “Esta geração é perversa!” Jesus também o diz de forma muito clara e apodíctica.

 

Gostaríamos também de um sinal. Na Igreja, há um grande desejo de uma “poção mágica”, como na banda desenhada “Astérix e Obélix”. Um gole e nós, cristãos, voltaríamos a ter sucesso... Alguns na Igreja querem voltar aos velhos tempos, outros querem ser “modernos” e adaptar-se ao espírito dos tempos: nenhum deles nos levará ao futuro.

 

Às gerações de há 2000 anos, que pediram sinais milagrosos mundanos para terem sucesso, Jesus responde com um apelo ao arrependimento. Para onde se deve virar a geração perversa? Para Jesus! Ele aponta para Si próprio: “Aqui está quem é maior do que Salomão! Aqui está quem é maior do que Jonas! Aqui está Aquele que abre a porta do coração do Pai.”

 

Só podemos mudar o mundo se nos convertermos a Jesus e ao Seu “programa”. Naturalmente nós, cristãos, queremos mudar, melhorar e curar este mundo terreno. Jesus também o fez. Mas o sucesso terreno é temporário. Jesus realiza a plenitude da redenção através da Sua morte. A verdadeira coisa que Jesus quer trazer a um mundo tão cheio de miséria é o amor e a justiça. Ou, para usar as suas palavras: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18, 36).

13 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 13

 


Domingo, 13 de Outubro de 2024

XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano B

Sb 7, 7-11; Sal 89; Heb 4,1 2-13; Mc 10, 17-30

 

Neste Mês Missionário, o apelo de Cristo a segui-l’O, a deixar tudo pelo Evangelho e pela vida eterna, chama-nos. Ele quer pessoas pobres de coração, que procurem apenas as riquezas da Sua Palavra para viver dela, que rezem para receber e irradiar a Sua sabedoria. Ser discípulo-missionário leva-nos a renunciar às riquezas deste mundo e a escolher a única riqueza que pode satisfazer o nosso coração: a riqueza do amor do Senhor, como pede o Salmo de hoje: “Enchei-nos da Vossa misericórdia: será ela a nossa alegria” (Salmo 89).

 

O Papa Francisco trouxe o exemplo de Madeleine Delbrêl, uma buscadora de Deus que viveu no agnosticismo até aos vinte anos. Depois partiu em busca de Deus com uma sede profunda e um “vazio que nela gritava a sua angústia”. O seu caminho de fé leva-a a escolher uma vida totalmente dedicada a Deus, no coração da Igreja e do mundo. Deslumbrada com o seu encontro com o Senhor, escreveu: “Uma vez que conhecemos a palavra de Deus, não temos o direito de não a receber; quando a recebemos, não temos o direito de não a deixar encarnar-se em nós; quando se encarna em nós, não temos o direito de a conservar para nós: a partir daquele momento, pertencemos àqueles que a esperam” (La santità della gente comune, Milão 2020, 71)” (Catequese 25. A paixão pela evangelização). Não é isto que testemunha a Carta aos Hebreus deste Domingo? A Palavra de Deus é viva e eficaz (cf. Heb 4, 12) e encarna-se em nós para que a possamos testemunhar aos outros.

 

Outro discípulo-missionário que deixou tudo para seguir Cristo e testemunhar o Seu Evangelho é São Carlos de Foucauld. “Depois de ter vivido uma juventude longe de Deus, sem acreditar em nada, a não ser na busca desordenada do prazer, ele confia-o a um amigo não crente, a quem, depois de se ter convertido aceitando a graça do perdão de Deus na Confissão, revela a razão da sua vida. Escreve: «Perdi o meu coração por Jesus de Nazaré». Assim, o Irmão Carlos recorda-nos que o primeiro passo para evangelizar é ter Jesus dentro do coração, é “perder a cabeça” por Ele. Se isso não acontecer, dificilmente conseguiremos mostrá-l’O com a vida. Ao contrário, corremos o risco de falar de nós próprios, do nosso grupo de pertença, de uma moral ou, pior ainda, de um conjunto de regras, mas não de Jesus, do Seu amor, da Sua misericórdia” (Catequese 23. A paixão pela evangelização).

 

O discípulo-missionário encontrou o tesouro de que Jesus fala no Evangelho de hoje. Continuando a sua catequese sobre Charles de Foucauld, o Papa Francisco fala deste tesouro: “À medida que cada um de nós conhece mais Jesus, nasce o desejo de O dar a conhecer, de partilhar este tesouro. Comentando a narração da visita de Nossa Senhora a Santa Isabel, leva-o a dizer: «Ofereci-me ao mundo... levai-me ao mundo!». Sim, mas como fazê-lo? Como Maria, no mistério da Visitação: «Em silêncio, com o exemplo, com a vida». Com a vida, porque «toda a nossa existência – escreve o Irmão Carlos – deve gritar o Evangelho». E muitas vezes a nossa existência grita mundanidade, grita tantas coisas estúpidas, coisas estranhas, e ele diz: “Não, toda a nossa existência deve gritar o Evangelho.”

 

“Então, ele decide estabelecer-se em regiões longínquas para gritar o Evangelho no silêncio, vivendo no espírito de Nazaré, em pobreza e escondimento. Vai para o deserto do Sahara, entre os não-cristãos, e chega lá como amigo e irmão, levando a mansidão de Jesus-Eucaristia” (Catequese 23).

 

A promessa de Jesus a quem deixar tudo por amor a Ele e ao Evangelho é entrar na vida eterna, no Reino! Isto é impossível para o homem, mas possível para Deus! Neste Mês Missionário, celebramos a contínua exortação de Deus a todos para que O sigam e se entreguem pelo Evangelho e pelo Reino. Por fim, deixamos que Deus torne possível o nosso desejo de abraçar a missão com todo o coração. Este apelo reflecte-se também no tema do próximo Domingo, Dia Mundial das Missões: Ide e convidai a todos para o banquete (cf. Mt 22, 9).

 

No “Vem e segue-Me”, como no “Ide e convidai a todos”, há um apelo a ir. Voltemos ao testemunho de Madeleine Delbrêl: “Para estar contigo no Teu caminho, é preciso ir, até quando a nossa preguiça nos suplica que fiquemos. Escolheste-nos para estar num estranho equilíbrio, um equilíbrio que só pode ser estabelecido e mantido em movimento, só num impulso. Um pouco como uma bicicleta, que não consegue ficar de pé sem estar em movimento [...] Só podemos estar de pé avançando, movendo-nos, num ímpeto de caridade». É aquilo a que ela chama a “espiritualidade da bicicleta” (Umorismo nell’Amore. Meditazioni e poesie, Milão 2011, 56). Só a caminho, correndo, vivemos no equilíbrio da fé, que é um desequilíbrio, mas é assim: como a bicicleta. Se pararmos, ela não fica em pé” (Catequese 25: A paixão pela evangelização).

 

No Evangelho, o rico que procurou a vida eterna não encontrou a alegria, mas a tristeza do materialismo. Para aqueles que, pelo contrário, encontraram a verdadeira alegria ao dar tudo e escolher Jesus, o Papa Francisco recorda-nos que hoje é um momento oportuno para anunciar Jesus e a alegria do Evangelho: “Assim, como os dois de Emaús, volta-se à vida de todos os dias com o ímpeto de quem encontrou um tesouro: aqueles dois eram jubilosos, porque tinham encontrado Jesus, e isto mudou as suas vidas. E descobre-se que a humanidade está repleta de irmãos e irmãs que aguardam uma palavra de esperança. O Evangelho é esperado até hoje: o homem de hoje é como o homem de todos os tempos, precisa dele, inclusive a civilização da incredulidade programada e da secularidade institucionalizada; aliás, sobretudo a sociedade que deixa vazios os espaços do sentido religioso, precisa de Jesus. Este é o momento favorável para o anúncio de Jesus. Por isso, gostaria de dizer novamente a todos: «A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, a alegria nasce e renasce sem cessar» (ibid., 1) (Catequese 26).

 

Por fim, juntemo-nos ao Papa Francisco para agradecer, neste Mês Missionário, a todos aqueles que responderam ao apelo de deixar tudo pelo anúncio do Evangelho: “Aproveito o momento para agradecer aos missionários e missionárias que, respondendo ao chamamento de Cristo, deixaram tudo e partiram para longe da sua pátria a fim de levar a Boa Nova aonde o povo ainda não a recebera ou só recentemente é que a conheceu. Irmãs e irmãos muito amados, a vossa generosa dedicação é expressão tangível do compromisso da missão ad gentes que Jesus confiou aos Seus discípulos: «Ide e fazei discípulos de todos os povos» (Mt 28, 19). Por isso continuamos a rezar e a agradecer a Deus pelas novas e numerosas vocações missionárias para esta obra de evangelização até aos confins da terra” (Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2024).

12 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 12

 


Sábado, 12 de Outubro de 2024

XXVII Semana do Tempo Comum – Ano B

Gl 3, 22-29; Sal 104; Lc 11, 27-28

 

Que dizer da nossa devoção a Maria, Mãe de Deus? É um fenómeno psicológico normal: se somos “fãs” de alguém, desenvolvemos automaticamente uma devoção pela mãe. Por outras palavras, quando o filho se torna uma estrela, isso afecta automaticamente a mãe, como mostra a história familiar de Elvis Presley, Michael Jackson ou Elton John...

 

Mas o nosso Senhor e Salvador não queria ser um “Jesus Cristo Superstar” ao estilo de Andrew Lloyd Webber, nem queria isso da Sua mãe ou dos Seus discípulos. Ser adorado exteriormente foi sempre muito pouco para Ele. No entanto, não o rejeitou porque não veio para combater os fenómenos psicológicos naturais, mas elevá-los ao sobrenatural. Por isso, não Se defende da adoração pessoal, da simpatia e da “adulação” que Lhe são dirigidas. Deixa que a multidão O acolha como um herói quando entra em Jerusalém. Mas a razão pela qual vai a Jerusalém não é para estabelecer um culto estelar à sua volta, mas para fazer com que o soldado que Lhe trespassou o coração na cruz diga: “Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus!” (Mc 15, 39). E, a partir desse momento, milhões e milhares de milhões de pessoas professarão a fé n’Ele.

 

Podemos e devemos amar Maria com todas as nossas forças. O feminino e o maternal também desempenham um papel importante, porque cada pessoa tem uma relação especial e naturalmente terna com a sua mãe. Isso é permitido! Sim, o seu ventre é abençoado, porque lhe foi permitido carregar dentro de si o que os céus não podem conter. Sim, o seu ventre é abençoado porque lhe foi permitido amamentar com o seu leite materno Aquele que quer tornar-Se alimento para todos nós na Eucaristia. Jesus encarnou para poder acariciar esta mulher como uma criança, que mais tarde nos daria como mãe na cruz. O Vaticano II diz d’Ele: “Trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano” (Gaudium et spes, 22).

 

O natural é a condição prévia do sobrenatural. Se amamos Jesus, amamos automaticamente aquela que tornou possível a Sua incarnação e que O serviu como nenhum outro ser humano. Mas uma “adoração” de Maria seria muito pouco. Jesus quer o discipulado, Jesus quer a imitação. São Bernardo de Claraval (+1153) diz: “Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste dos teus lábios, não se afaste de teu coração.”

11 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 11


Sexta-feira, 11 de Outubro de 2024

XXVII Semana do Tempo Comum – Ano B

Gl 3, 7-14; Sal 110; Lc 11, 15-26

Estamos no Mês Missionário de Outubro, cujo ponto alto é o Dia Mundial das Missões. A Igreja celebra-o desde 1926, quando o mundo e a Igreja viviam um período ‘demoníaco’. Os demónios do nacionalismo tinham conduzido à Primeira Grande Guerra Mundial e, com o seu fim, os demónios não tinham de modo algum desaparecido, mas tinham-se tornado ainda mais ferozes, alimentados por terríveis crises económicas. Durante este período, o Papa Pio XI (1922-1939) opôs às hostilidades e rivalidades entre as nações o domínio de Cristo. O seu lema é programático e diz: “Pax Christi in regno Christi – A paz de Cristo no reino de Cristo!”

Um dos exorcismos do seu tempo foi a fundação das Obras Missionárias Pontifícias em 1922, onde transformou as três sociedades missionárias nacionais francesas existentes numa organização universal e “papal”. A Igreja foi, desde o seu início, um actor global, transcendendo todas as fronteiras raciais, étnicas e políticas. Isto é evidenciado pela lista de 17 (!) grupos étnicos (Act 2, 9-11) que se reuniram à volta de Pedro e dos discípulos cheios do Espírito no Pentecostes.

No Evangelho de hoje, Jesus fala da expulsão dos demónios. Diz de Si próprio: “Se Eu expulso os demónios pelo dedo de Deus, então quer dizer que o reino de Deus chegou até vós” (Lc 11, 20). Não cometamos o erro dos séculos anteriores, em que a Igreja, com as suas instituições, hierarquias e órgãos, era praticamente identificada com o Reino de Deus. A Igreja não é o reino de Deus. Mas serve o reino de Deus, o Seu reino no coração dos homens e a união dos povos.

Pio XI não só fundou as Obras Missionárias Pontifícias em 1922, como também introduziu o Dia Mundial das Missões em Outubro de 1926, então em preparação para a festa de Cristo Rei, que era celebrada no último Domingo de Outubro. Trata-se da solidariedade mundial entre os cristãos católicos que rezam com e pelos outros. Trata-se de solidariedade, de recolha de fundos em todas as Igrejas do mundo e de criar um equilíbrio justo no seio da Igreja. O Dia Mundial das Missões expulsa de nós, católicos, os demónios da “auto-referencialidade” (Papa Francisco). Abre os nossos corações à solidariedade global. Hoje, em particular, o Dia Mundial das Missões é um contributo importante para assegurar que “a paz de Cristo reine no reino de Cristo” (Pio XI).