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28 março 2025

Bispo Emérito, D Manuel Felício: parte para a Diocese de Sumbe, Angola, com a missão de reactivar o Centro de Espiritualidade Dom João de Oliveira Matos, em Kilenda

 

MENSAGEM
À Igreja Egitaniense

O Senhor é Bom! O Senhor está próximo!

Conforme anunciado na alocução final na missa de ordenação e início do múnus pastoral na Guarda, no passado dia 16 de março, e após consulta às instâncias pertinentes para o efeito, nomeadamente o Colégio de Consultores e a Coordenadora Geral dos Servos Internos da Liga dos Servos de Jesus, comunico com alegria o apoio institucional da Diocese e da mesma Liga ao projeto missionário que o nosso Bispo emérito, Dom Manuel Felício deseja abraçar a partir do próximo mês de Abril.

Tal projeto consiste na reativação do Centro de Espiritualidade da Missão Dom João de Oliveira Matos, sediada na Kilenda, Diocese de Sumbe, Angola. Com o consentimento do Bispo de Sumbe e o apoio dos Padres Missionários da Boa Nova, que o acolherão na sua casa em Gabela, Dom Manuel Felício dinamizará a formação de agentes pastorais e a oferta de retiros e outras formas de oração e promoção da espiritualidade.

A vitalidade e o ânimo interior com que Dom Manuel Felício se abre ao sopro do Espírito guiem-no nesta missão. Para a Diocese, é um sinal e uma oportunidade muito real de Esperança, podendo constituir-se um impulso para uma renovação missionária da nossa Igreja diocesana.

Missões universitárias no Verão, geminações missionárias, projetos de famílias em missão (em férias ou pequenos períodos da vida em casal), projetos missionários com os Servos Externos da Liga, ou outros que o Espírito suscite: a reativação de uma base permanente em Angola, com dinamismo espiritual e apostólico, poderá favorecer o aparecimento de iniciativas missionárias e partilha entre Igrejas. E renovar-nos para sermos uma Igreja missionária, em saída.

Suplicando para todos a bênção do Alto, em Deus,

+ José Pereira, Bispo da Guarda


ver em: https://diocesedaguarda.pt/bispo-emerito-parte-para-a-diocese-de-sumbe-angola-com-a-missao-de-reabrir-o-centro-de-espiritualidade-dom-joao-de-oliveira-matos-em-kilenda/ 

29 outubro 2024

Bispo da Guarda - a propósito do encerramento do Sínodo dos Bispos em Roma

 

Terminou o Sínodo sobre a sinodalidade, com encerramento presidido pelo Papa Francisco, na Eucaristia da manhã de domingo passado, na Praça de S. Pedro, em Roma.

O documento final foi apresentado na véspera, sábado e não terá exortação apostólica posterior, como tem acontecido com os restantes sínodos até agora realizados. Mas, desde a sua publicação, por vontade expressa do Papa, constitui texto do Magistério oficial da Igreja.

Este documento organiza–se em 5 partes, com uma introdução e uma conclusão.

Todo ele, a avaliar pela introdução e pela e I parte, pretende que a vida sinodal da Igreja esteja baseada na experiência do Ressuscitado, que foi a grande surpresa dos Doze na tarde do primeiro Domingo de Páscoa (Introdução – Jo. 20, 19-20), como já o tinha sido para Maria Madalena, na madrugada daquele mesmo primeiro dia da semana (Jo. 20, 1-2).

Depois de nos colocar diante do coração da sinodalidade (parte I), com suas raízes na Bíblia e na Tradição da Igreja, o documento toma como linha condutora o capítulo 21 do Evangelista S. João, que nos apresenta os apóstolos na barca de Pedro e a partir para a pesca, que não correu bem. Mas a obediência à Palavra de Jesus tudo mudou para melhor.

Reportando-nos, agora, à parte II, a barca de Pedro, que representa a Igreja, é o lugar do encontro, onde se constroem e vivem relações fortes e de comunhão, na pluralidade dos muitoscontextos existentes. É o espaço onde se cultivam os diferentes carismas, vocações e ministérios para a missão e também se progride no exercício da corresponsabilidade.

Como Jesus convidou os discípulos a lançarem, de novo, as redes ao mar, apesar da experiência negativa que tinham vivido, também faz, hoje, o mesmo convite para a missão a todos os baptizados.

A parte III convida-nos para a revisão e a conversão dos processos que habitualmente utilizamos e nem sempre com os melhores resultados (Jo. 21, 5-6). Isso implica fazer o discernimento eclesial, sempre em ordem à missão, com permanente esforço de transparência, prestação de contas e avaliação.

Situando-se nos bons resultados da pesca abundante que se seguiu ao mandato de Jesus ( Jo.21, 8.11), a parte IV sublinha a nossa condição de peregrinos, sem deixarmos de estar radicados num lugar determinado.

Somos assim convidados a caminhar juntos, como discípulos de Cristo, partilhando os diferentes dons que recebemos do Espírito Santo. No processo desta partilha, o documento chama a atenção para os importantes instrumentos que são as Conferências Episcopais e o Primado do Papa, como também as variadas assembleias eclesiais.

A parte V e última centra-se no envio dos discípulos por Jesus: “Como Pai me enviou também vos envio a vós” (Jo.20, 21-22). E sublinha a necessidade da formação para todos os discípulos missionários, uma formação que seja integral, contínua e partilhada.

A conclusão fala no banquete preparado para todos os povos, representado naquela refeição de peixe que Jesus prepara para os discípulos, depois da pesca milagrosa (Jo. 21, 9.12.13).

As últimas palavras são para Nossa Senhora, Maria Santíssima, pedindo-lhe que “nos ensine a ser um povo de discípulos missionários, que caminha em conjunto: uma Igreja sinodal”.

No documento final deste Sínodo não constam os 10 casos, cujo tratamento foi encomendado a 10 grupos de estudo conduzido por especialistas. Um deles, o 5º, é sobre “questões teológicas e canónicas que envolvem formas específicas de ministério”, dentro do qual se inclui a resposta à pergunta sobre se as mulheres podem ser chamadas ao exercício da Ordem do Diaconado. O Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé já veio dizer que, apesar de este continuar a ser assunto em aberto, a Igreja continua empenhada em tudo fazer para que seja dado o devido lugar à mulher, tanto na vida da Igreja como na sociedade.

28.10.2024

+Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda



26 fevereiro 2024

Mensagem do Bispo da Guarda - Dia Nacional da Caritas - 03 março 2024


Celebramos o Dia Nacional da Caritas no III Domingo da Quaresma, este ano, dia 3 de março.

Nesse dia e durante a semana que o precede, vamos lembrar a nós e às nossas comunidades, em espírito de verdadeira conversão quaresmal, o que Evangelho nos diz – “Só o amor transforma”.

Esta iniciativa junta toda a rede Caritas em Portugal e pretende, a partir deste tema bíblico de fundo e comum a todos, chamar a nossa atenção para a ação social e as atividades pastorais que lhe dão suporte; e, ao mesmo tempo, promover angariação de fundos para os programas que a rede Caritas em Portugal está a desenvolver. O objetivo é sensibilizar as pessoas e motivar as comunidades para o cuidado que devem ter com os que se encontram em situações mais difíceis.

Todos temos obrigação de cuidar bem uns dos outros e as comunidades têm de saber  colocar esta mesma obrigação no centro das suas preocupações e programas.

Ora,  há indicadores de que o número de pessoas em Portugal que precisam de ajuda para obviar à suas necessidades primárias não só não tem diminuído, mas, pelo contrário,  aumentou significativamente nos últimos 4 anos,  comparativamente com os 4 anos anteriores. Isto mesmo nos diz um estudo desenvolvido, no âmbito do Observatório Caritas, de que resultou o documento “Pobreza e exclusão social em Portugal”, que vai ser publicado durante a próxima semana, a  Semana Nacional da Caritas.

Segundo este estudo, mais de 500 mil pessoas em Portugal estão em “privação material severa”, dados confirmados pelo instituto Nacional de Estatística. Mais de 240 mil pessoas não têm para a sua alimentação primária, mais de 700m mil não têm pata adquirir roupa e mais de 2 milhões têm de suportar o frio do inverno, sem meios para o combater. O número dos sem abrigo, particularmente nos grandes centros urbanos, não pára de crescer, como também é preocupante a situação dos que vivem em alojamento precário.

Ora, esta Semana da Caritas há de servir, pro um lado,  para lembrarmos às comunidades a obrigação de cuidar bem dos mais carenciados, através da instituição Caritas ou de outras formas; por outro, para lembrar à sociedade em geral e aos seus poderes públicos que precisamos de políticas mais exigentes e determinadas para ajudar os mais vulneráveis. O esforço por erradicar  a pobreza mais extrema é única maneira de levar a sério a preconizada “Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-30”.

Falando para as nossas comunidades, a certeza do Evangelho de que só o amor transforma obriga-nos a ser criativos, na procura dos melhores caminhos para lhe dar cumprimento. E essa criatividade tem de ser de todos, pois nenhuma comunidade pode estar satisfeita enquanto não encontrar formas organizadas de identificar os que mais precisam para depois cuidar bem deles.

Que esta semana a todos nos desperte para sabermos cuidar bem uns dos outros.

24.2.2024

+Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda

 


14 fevereiro 2024

Mensagem da Quaresma 2024 do Bispo da Guarda, D. Manuel Felício

 

Foto: web, Pe Hugo Martins

A Quaresma - Caminhada de Fé rumo à liberdade

 

A Quaresma é sempre um forte apelo à responsabilidade das pessoas e das comunidades para reverem as suas vidas, reconhecerem os seus percursos errados e lhes darem o rumo certo.

Para nos orientar e motivar neste esforço de travessia do deserto, contamos com a iniciativa do próprio Deus, que vem ao nosso encontro, na Pessoa de Jesus e na luz e força do Espírito Santo.

Como nos lembra o Papa na sua Mensagem, a Quaresma é tempo de graça em que o deserto volta a ser o lugar do primeiro amor (Os. 2,16-17).

É tempo para revivermos o cuidado que Deus tem por todos e cada um de nós, pois Ele vem, uma e outra vez, e surpreende-nos com a sua presença e com os caminhos novos que nos aponta; e também para despertarmos em nós a obrigação de cuidarmos bem uns dos outros e da própria casa comum que habitamos. Essa mesma obrigação nos lembra o Papa, na sua Mensagem, quando convida para “o cuidado com a criação e a inclusão de quem não é visto ou marginalizado”.

Precisamos, por isso, de cultivar a vigilância sobre as nossas pessoas e sobre a vida da Igreja e do próprio mundo, quer para sentirmos o cuidado de Deus, quer para reforçarmos o nosso.

 

O encontro mais intenso com a Palavra de Deus e a oração, assim como o cuidado dos outros, especialmente quando os outros são os mais fracos e vulneráveis, têm de fazer parte do nosso programa quaresmal.

Por sua vez, a revisão de vida, através do exame de consciência mais apurado e a procura do perdão do Senhor no Sacramento da Reconciliação, são igualmente caminho que não podemos dispensar, como nos lembra este tempo forte da Quaresma. Ajudam-nos momentos de paragem, para leitura da nossa vida pessoal e comunitária, à luz da Palavra de Deus. E os retiros, recoleções e outros momentos de reflexão e oração propostos pelos programas quaresmais das comunidades, sejam de paróquias, de arciprestado ou outros, constituem oportunidades que temos de saber aproveitar.

A tradição do jejum, da oração e da esmola não perdeu nenhuma atualidade e continua a ser método válido para progredirmos na prática da caridade e, em geral, na nossa conversão. Assim nos iremos preparando para que a Páscoa seja, de verdade, a vida nova de Cristo Ressuscitado a espelhar-se, o mais possível, nas nossas vidas.

Por sua vez, as promessas batismais, que renovaremos na Noite Pascal, queremos que sejam o ponto de chegada deste percurso de renovação da Fé a que a Quaresma nos convida. Com elas professamos também a verdadeira liberdade dos filhos de Deus.

Estamos já habituados a fazer renúncia quaresmal em favor de alguma necessidade que nos é recomendada. Este ano, tendo em conta que a Liga dos Servos de Jesus celebra o seu centenário, vamos dirigir a nossa renúncia quaresmal para o centro missionário que a mesma Liga criou em Angola. Este centro missionário consta de uma escola do ensino básico que, agora sob orientação do Bispo Diocesano local, acolhe 500 alunos. Ao lado, há um centro de espiritualidade, que a pandemia obrigou a fechar. É especialmente para a reabertura deste centro missionário de espiritualidade que queremos dirigir o nosso contributo da renúncia quaresmal, contando com a cooperação dos missionários da Boa Nova.

Com a bênção de Deus e a companhia carinhosa e maternal de Nossa Senhora, procuremos viver, com muita esperança, a caminhada desta Quaresma, no espírito sinodal que nos é recomendado.

Guarda, 9.2.2024

+Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda

04 outubro 2023

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE - PAPA FRANCISCO PARA O DIA MUNDIAL DAS MISSÕES DE 2023 - 22 de outubro de 2023


Corações ardentes, pés ao caminho (cf. Lc 24, 13-15)

Queridos irmãos e irmãs!
Para o Dia Mundial das Missões deste ano escolhi um tema que se inspira na história dos discípulos de Emaús, narrada por Lucas no seu Evangelho (cf. 24, 13-35): «Corações ardentes, pés ao caminho». Aqueles dois discípulos estavam confusos e desiludidos, mas o encontro com Cristo na Palavra e no Pão partido acendeu neles o entusiasmo para pôr os pés ao caminho rumo a Jerusalém e anunciar que o Senhor tinha verdadeiramente ressuscitado. Na narração evangélica, apreendemos a transformação dos discípulos a partir de algumas imagens sugestivas: corações ardentes pelas Escrituras explicadas por Jesus, olhos abertos para O reconhecer e, como ponto culminante, pés ao caminho. Meditando sobre estes três aspetos, que traçam o itinerário dos discípulos missionários, podemos renovar o nosso zelo pela evangelização no mundo de hoje.
1. Corações ardentes, «quando nos explicava as Escrituras». A Palavra de Deus ilumina e transforma o coração na missão.
No caminho de Jerusalém para Emaús, os corações dos dois discípulos estavam tristes – como transparecia dos seus rostos – por causa da morte de Jesus, em Quem haviam acreditado (cf. 24, 17). Perante o fracasso do Mestre crucificado, a esperança de que fosse Ele o Messias, desmoronou-se neles (cf. 24, 21).
E eis que, «enquanto conversavam e discutiam, aproximou-Se deles o próprio Jesus e pôs-Se com eles a caminho» (24, 15). Como no início da vocação dos discípulos, também agora, no momento da frustração, o Senhor toma a iniciativa de Se aproximar dos seus discípulos e caminhar a par deles. Na sua grande misericórdia, Ele nunca Se cansa de estar connosco, apesar dos nossos defeitos, dúvidas, fraquezas e não obstante a tristeza e o pessimismo nos reduzam a «homens sem inteligência e lentos de espírito» (24, 25), pessoas de pouca fé.
Hoje como então, o Senhor ressuscitado está próximo dos seus discípulos missionários e caminha a par deles, sobretudo quando se sentem frustrados, desanimados, temerosos perante o mistério da iniquidade que os rodeia e quer sufocá-los. Por isso, «não deixemos que nos roubem a esperança!» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 86). O Senhor é maior do que os nossos problemas, sobretudo quando os encontramos ao anunciar o Evangelho ao mundo, porque esta missão, afinal, é d’Ele e nós somos simplesmente os seus humildes colaboradores, «servos inúteis» (cf. Lc 17, 10).
Em Cristo, expresso a minha proximidade a todos os missionários e missionárias do mundo, especialmente àqueles que atravessam um momento difícil: caríssimos, o Senhor ressuscitado está sempre convosco e vê a vossa generosidade e os vossos sacrifícios em prol da missão evangelizadora em lugares distantes. Nem todos os dias da vida são cheios de sol, mas lembremo-nos sempre das palavras do Senhor Jesus aos seus amigos, antes da Paixão: «No mundo, tereis tribulações; mas tende confiança: Eu já venci o mundo!» (Jo 16, 33).
Depois de ouvir os dois discípulos no caminho de Emaús, Jesus ressuscitado, «começando por Moisés e seguindo por todos os profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que Lhe dizia respeito» (Lc 24, 27). E os corações dos discípulos inflamaram-se, como no fim haviam de confidenciar um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» (24, 32). Na realidade, Jesus é a Palavra viva, a única que pode fazer arder, iluminar e transformar o coração.
Assim compreendemos melhor a afirmação de São Jerónimo: «A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo» (Commentarii in Isaiam, Prologus). «Sem o Senhor que nos introduz na Sagrada Escritura, é impossível compreendê-la em profundidade; mas é verdade também o contrário, ou seja, que, sem a Sagrada Escritura, permanecem indecifráveis os acontecimentos da missão de Jesus e da sua Igreja no mundo» (Francisco, Carta ap. sob forma de Motu Proprio Aperuit illis, 1). Por isso, o conhecimento da Escritura é importante para a vida do cristão e, mais ainda, para o anúncio de Cristo e do seu Evangelho. Caso contrário, que iríamos transmitir aos outros senão as próprias ideias e projetos? E poderia alguma vez um coração frio fazer arder o dos outros?
Portanto, deixemo-nos sempre acompanhar pelo Senhor ressuscitado que nos explica o sentido das Escrituras. Deixemos que Ele faça arder o nosso coração, nos ilumine e transforme, para podermos anunciar ao mundo o seu mistério de salvação com a força e a sabedoria que vêm do seu Espírito.
2. Olhos que «se abriram e O reconheceram» ao partir o pão. Jesus na Eucaristia é ápice e fonte da missão.
Os corações ardentes pela Palavra de Deus impeliram os discípulos de Emaús a pedir ao misterioso Viandante que ficasse com eles ao cair da noite. E, encontrando-se ao redor da mesa, os seus olhos abriram-se e reconheceram-No, quando Ele partiu o pão. O elemento decisivo que abre os olhos dos discípulos é a sequência de ações efetuadas por Jesus: tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu-lho. São gestos comuns de qualquer chefe de família judia, mas, realizados por Jesus Cristo com a graça do Espírito Santo, renovam para os dois comensais o sinal da multiplicação dos pães e sobretudo da Eucaristia, o sacramento do Sacrifício da cruz. Mas, precisamente no momento em que reconhecem Jesus n’Aquele-que-parte-o-pão, «Ele desapareceu da sua presença» (Lc 24, 31). Este facto faz compreender uma realidade essencial da nossa fé: Cristo que parte o pão, torna-Se agora o Pão partido, partilhado com os discípulos e depois consumido por eles. Tornou-Se invisível, porque agora entrou dentro do coração dos discípulos para fazê-los arder ainda mais, impelindo-os a retomar sem demora o seu caminho para comunicar a todos a experiência única do encontro com o Ressuscitado! Assim, Cristo ressuscitado é Aquele-que-parte-o-pão e, simultaneamente, o Pão-partido-para-nós. E, por conseguinte, cada discípulo missionário é chamado a tornar-se, como Jesus e n’Ele, graças à ação do Espírito Santo, aquele-que-parte-o-pão e aquele-que-é-pão-partido para o mundo.
A propósito, é preciso ter presente que, se o simples repartir o pão material com os famintos em nome de Cristo já é um ato cristão missionário, quanto mais o será o repartir o Pão eucarístico, que é o próprio Cristo? Trata-se da ação missionária por excelência, porque a Eucaristia é fonte e ápice da vida e missão da Igreja.
Assim no-lo recordou o Papa Bento XVI: «Não podemos reservar para nós o amor que celebramos neste sacramento [da Eucaristia]: por sua natureza, pede para ser comunicado a todos. Aquilo de que o mundo tem necessidade é do amor de Deus, é de encontrar Cristo e acreditar n’Ele. Por isso, a Eucaristia é fonte e ápice não só da vida da Igreja, mas também da sua missão: uma Igreja autenticamente eucarística é uma Igreja missionária» (Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis, 84).
Para dar fruto, devemos permanecer unidos a Ele (cf. Jo 15, 4-9). E esta união realiza-se através da oração quotidiana, particularmente na adoração, no permanecer em silêncio diante do Senhor, que está connosco na Eucaristia. Cultivando amorosamente esta comunhão com Cristo, o discípulo missionário pode tornar-se um místico em ação. Que o nosso coração anele sempre pela companhia de Jesus, suspirando conforme o ardente pedido dos dois de Emaús, sobretudo ao entardecer: «Fica connosco, Senhor!» (cf. Lc 24, 29).
3. Pés ao caminho, com a alegria de proclamar Cristo Ressuscitado. A eterna juventude duma Igreja sempre em saída.
Depois de abrir os olhos ao reconhecerem Jesus na fração do pão, os discípulos partiram sem demora e voltaram para Jerusalém (cf. Lc 24, 33). Este sair apressado para partilhar com os outros a alegria do encontro com o Senhor, mostra que «a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 1). Não se pode encontrar verdadeiramente Jesus ressuscitado, sem se inflamar no desejo de o contar a todos. Por isso, o primeiro e principal recurso da missão são aqueles que reconheceram Cristo ressuscitado, nas Escrituras e na Eucaristia, e que trazem o seu fogo no coração e a sua luz no olhar. Eles podem testemunhar a vida que não morre jamais, mesmo nas situações mais difíceis e nos momentos mais escuros.
A imagem de pôr os «pés ao caminho» recorda-nos mais uma vez a validade perene da missio ad gentes, a missão confiada pelo Senhor ressuscitado à Igreja: evangelizar toda a pessoa e todos os povos até aos confins da terra. Hoje, mais do que nunca, a humanidade, ferida por tantas injustiças, divisões e guerras, precisa da Boa Nova da paz e da salvação em Cristo. Por isso, aproveito esta ocasião para reiterar que «todos têm o direito de receber o Evangelho. Os cristãos têm o dever de o anunciar sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível» (Ibid., 14). A conversão missionária permanece o principal objetivo que nos devemos propor como indivíduos e como comunidade, porque «a ação missionária é o paradigma de toda a obra da Igreja» (Ibid., 15).
Como afirma o apóstolo Paulo, o amor de Cristo conquista-nos e impele-nos (cf. 2 Cor 5, 14). Trata-se aqui do duplo amor: o de Cristo por nós que apela, inspira e suscita o nosso amor por Ele. E é este amor que torna sempre jovem a Igreja em saída, com todos os seus membros em missão para anunciar o Evangelho de Cristo, convencidos de que «Ele morreu por todos, a fim de que, os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou» (2 Cor 5, 15). Todos podem contribuir para este movimento missionário: com a oração e a ação, com ofertas de dinheiro e de sofrimento, com o próprio testemunho. As Pontifícias Obras Missionárias são o instrumento privilegiado para favorecer esta cooperação missionária a nível espiritual e material. Por isso, a recolha de ofertas no Dia Mundial das Missões é destinada à Pontifícia Obra da Propagação da Fé.
A urgência da ação missionária da Igreja comporta naturalmente uma cooperação missionária, cada vez mais estreita, de todos os seus membros a todos os níveis. Este é um objetivo essencial do percurso sinodal que a Igreja está a realizar com as palavras-chave comunhão, participação, missão. Seguramente tal percurso não é um fechar-se da Igreja sobre si mesma; não é um processo de sondagem popular para decidir, como num parlamento, o que é preciso, ou não, acreditar e praticar segundo as preferências humanas. Pelo contrário, é pôr-se a caminho como os discípulos de Emaús, escutando o Senhor ressuscitado que não cessa de vir juntar-Se a nós para nos explicar o sentido das Escrituras e partir o pão para nós, a fim de podermos levar avante, com a força do Espírito Santo, a sua missão no mundo.
Assim como aqueles dois discípulos narraram aos outros o que lhes tinha acontecido pelo caminho (cf. Lc 24, 35), assim também o nosso anúncio há de ser uma jubilosa narração de Cristo Senhor, da sua vida, da sua paixão, morte e ressurreição, das maravilhas que o seu amor realizou na nossa vida.
Portanto saiamos também nós, iluminados pelo encontro com o Ressuscitado e animados pelo seu Espírito. Saiamos com corações ardentes, olhos abertos, pés ao caminho, para fazer arder outros corações com a Palavra de Deus, abrir outros olhos para Jesus Eucaristia, e convidar todos a caminharem juntos pelo caminho da paz e da salvação que Deus, em Cristo, deu à humanidade.
Santa Maria do Caminho, Mãe dos discípulos missionários de Cristo e Rainha das missões, rogai por nós!
Roma – São João de Latrão, na solenidade da Epifania do Senhor, 6 de janeiro de 2023.
FRANCISCO