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18 julho 2013
14 março 2013
Papa Francisco I
O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos, foi hoje
eleito como novo Papa da Igreja Católica, o primeiro do continente
americano, e escolheu o nome de Francisco I.
“Sabeis que o dever do Conclave era dar um bispo a Roma: parece que
os meus irmãos cardeais foram buscá-lo quase ao fim do mundo”, disse, na
primeira aparição perante cerca de 150 mil pessoas que lotaram a Praça
de São Pedro, no Vaticano.
O novo Papa, religioso jesuíta, surpreendeu os presentes ao pedir “um
favor”, antes de dar a sua tradicional bênção neste encontro inicial.
“Peço-vos que rezem ao Senhor para que me abençoe, a oração do povo
pedindo a bênção pelo seu bispo. Façamos em silêncio esta oração”,
declarou, conseguindo calar a multidão que se encontrava em festa há
cerca de uma hora, após a saída do fumo branco da chaminé colocada sobre
a Capela Sistina.
A primeira bênção seria, posteriormente, estendida a "todo o mundo, a todos os homens e mulheres de boa vontade".
O Papa começou por desejar uma “boa noite” aos presentes e agradeceu o “acolhimento” da comunidade de Roma.
Francisco I começou por propor uma oração pelo Papa emérito, Bento XVI, para que o “Senhor a abençoe”.
A intervenção aludiu depois a um “caminho” que começa, unindo “bispo e
povo”, na Igreja de Roma, “aquela que preside na caridade a todas as
Igrejas”.
“Um caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós”, precisou.
“Rezemos sempre por nós, uns pelos outros, por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade”, acrescentou o novo Papa.
Francisco I deixou votos de “este caminho da Igreja” seja “frutuoso para a evangelização desta tão bela cidade (Roma)”.
"Irmãos e irmãs, agora deixo-vos: obrigado pelo vosso acolhimento.
Rezai por mim, vemo-nos em breve, amanhã quero ir rezar a Nossa Senhora
para guarde toda a (cidade de Roma). Boa noite e bom descanso", disse,
ao despedir-se.
O fumo branco saiu hoje da chaminé colocada sobre a Capela Sistina a partir 19h06 locais (menos uma em Lisboa).
O sucessor de Bento XVI, que renunciou ao pontificado, foi eleito no
quinto escrutínio da reunião eleitoral iniciada esta terça-feira, à
porta fechada, pelas 17h34 (hora de Roma).
Francisco I tem menos dois anos do que Joseph Ratzinger quando este foi eleito em abril de 2005, aos 78 anos.
O agora Papa emérito, de 85 anos, renunciou por causa da sua “idade avançada”.
In Diocese da Guarda
13 fevereiro 2013
MENSAGEM DE SUA SANTIDADE BENTO XVI PARA A QUARESMA DE 2013
Crer na caridade suscita caridade
«Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16)
«Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16)
A celebração da Quaresma, no contexto do
Ano da fé,
proporciona-nos uma preciosa ocasião para meditar sobre a relação entre
fé e caridade: entre o crer em Deus, no Deus de Jesus Cristo, e o amor,
que é fruto da acção do Espírito Santo e nos guia por um caminho de
dedicação a Deus e aos outros.
1. A fé como resposta ao amor de Deus
Na minha primeira Encíclica,
deixei já alguns elementos que permitem individuar a estreita ligação
entre estas duas virtudes teologais: a fé e a caridade. Partindo duma
afirmação fundamental do apóstolo João: «Nós conhecemos o amor que Deus
nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16), recordava que,
«no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma
grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma
Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo
decisivo. (...) Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo
4, 10), agora o amor já não é apenas um “mandamento”, mas é a
resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro»
(Deus caritas est, 1). A fé constitui aquela adesão pessoal - que
engloba todas as nossas faculdades - à revelação do amor
gratuito e «apaixonado» que Deus tem por nós e que se
manifesta plenamente em Jesus Cristo. O encontro com Deus
Amor envolve não só o coração, mas também o intelecto: «O
reconhecimento do Deus vivo é um caminho para o amor, e o sim
da nossa vontade à d’Ele une intelecto, vontade e sentimento no
acto globalizante do amor. Mas isto é um processo que
permanece continuamente a caminho: o amor nunca está
"concluído" e completado» (ibid., 17). Daqui deriva, para todos os
cristãos e em particular para os «agentes da caridade», a
necessidade da fé, daquele «encontro com Deus em Cristo que
suscite neles o amor e abra o seu íntimo ao outro, de tal modo
que, para eles, o amor do próximo já não seja um mandamento
por assim dizer imposto de fora, mas uma consequência
resultante da sua fé que se torna operativa pelo amor» (ibid.,
31). O cristão é uma pessoa conquistada pelo amor de Cristo e,
movido por este amor - «caritas Christi urget nos» (2 Cor 5, 14) -
, está aberto de modo profundo e concreto ao amor do próximo
(cf. ibid., 33). Esta atitude nasce, antes de tudo, da consciência
de ser amados, perdoados e mesmo servidos pelo Senhor, que Se
inclina para lavar os pés dos Apóstolos e Se oferece a Si mesmo
na cruz para atrair a humanidade ao amor de Deus.
«A fé mostra-nos o Deus que entregou o seu Filho por nós e
assim gera em nós a certeza vitoriosa de que isto é mesmo
verdade: Deus é amor! (...) A fé, que toma consciência do amor
de Deus revelado no coração trespassado de Jesus na cruz,
suscita por sua vez o amor. Aquele amor divino é a luz –
fundamentalmente, a única - que ilumina incessantemente um
mundo às escuras e nos dá a coragem de viver e agir» (ibid., 39).
Tudo isto nos faz compreender como o procedimento principal
que distingue os cristãos é precisamente «o amor fundado sobre
a fé e por ela plasmado» (ibid., 7).
2. A caridade como vida na fé
Toda a vida cristã consiste em responder ao amor de Deus.
A primeira resposta é precisamente a fé como acolhimento, cheio
de admiração e gratidão, de uma iniciativa divina inaudita que
nos precede e solicita; e o «sim» da fé assinala o início de uma
luminosa história de amizade com o Senhor, que enche e dá
sentido pleno a toda a nossa vida. Mas Deus não se contenta com
o nosso acolhimento do seu amor gratuito; não Se limita a amar-nos,
mas quer atrair-nos a Si, transformar-nos de modo tão
profundo que nos leve a dizer, como São Paulo: Já não sou eu
que vivo, é Cristo que vive em mim (cf. Gl 2, 20).
Quando damos espaço ao amor de Deus, tornamo-nos
semelhantes a Ele, participantes da sua própria caridade.
Abrirmo-nos ao seu amor significa deixar que Ele viva em nós e
nos leve a amar com Ele, n'Ele e como Ele; só então a nossa fé
se torna verdadeiramente uma «fé que actua pelo amor» (Gl 5,
6) e Ele vem habitar em nós (cf. 1 Jo 4, 12).
A fé é conhecer a verdade e aderir a ela (cf. 1 Tm 2, 4); a
caridade é «caminhar» na verdade (cf. Ef 4, 15). Pela fé, entra-se
na amizade com o Senhor; pela caridade, vive-se e cultiva-se
esta amizade (cf. Jo 15, 14-15). A fé faz-nos acolher o
mandamento do nosso Mestre e Senhor; a caridade dá-nos a
felicidade de pô-lo em prática (cf. Jo 13, 13-17). Na fé, somos
gerados como filhos de Deus (cf. Jo 1, 12-13); a caridade faz-nos
perseverar na filiação divina de modo concreto, produzindo o
fruto do Espírito Santo (cf. Gl 5, 22). A fé faz-nos reconhecer os
dons que o Deus bom e generoso nos confia; a caridade fá-los
frutificar (cf. Mt 25, 14-30).
3. O entrelaçamento indissolúvel de fé e caridade
À luz de quanto foi dito, torna-se claro que nunca podemos
separar e menos ainda contrapor fé e caridade. Estas duas
virtudes teologais estão intimamente unidas, e seria errado ver
entre elas um contraste ou uma «dialéctica». Na realidade, se,
por um lado, é redutiva a posição de quem acentua de tal
maneira o carácter prioritário e decisivo da fé que acaba por
subestimar ou quase desprezar as obras concretas da caridade
reduzindo-a a um genérico humanitarismo, por outro é
igualmente redutivo defender uma exagerada supremacia da
caridade e sua operatividade, pensando que as obras substituem
a fé. Para uma vida espiritual sã, é necessário evitar tanto o
fideísmo como o activismo moralista.
A existência cristã consiste num contínuo subir ao monte do
encontro com Deus e depois voltar a descer, trazendo o amor e a
força que daí derivam, para servir os nossos irmãos e irmãs com
o próprio amor de Deus. Na Sagrada Escritura, vemos como o
zelo dos Apóstolos pelo anúncio do Evangelho, que suscita a fé,
está estreitamente ligado com a amorosa solicitude pelo serviço
dos pobres (cf. At 6, 1-4). Na Igreja, devem coexistir e integrar-se
contemplação e acção, de certa forma simbolizadas nas figuras
evangélicas das irmãs Maria e Marta (cf. Lc 10, 38-42). A
prioridade cabe sempre à relação com Deus, e a verdadeira
partilha evangélica deve radicar-se na fé (cf.
Catequese na
Audiência geral de 25 de Abril de 2012). De facto, por vezes
tende-se a circunscrever a palavra «caridade» à solidariedade ou
à mera ajuda humanitária; é importante recordar, ao invés, que a
maior obra de caridade é precisamente a evangelização, ou seja,
o «serviço da Palavra». Não há acção mais benéfica e, por
conseguinte, caritativa com o próximo do que repartir-lhe o pão
da Palavra de Deus, fazê-lo participante da Boa Nova do
Evangelho, introduzi-lo no relacionamento com Deus: a
evangelização é a promoção mais alta e integral da pessoa
humana. Como escreveu o Servo de Deus Papa Paulo VI, na
Encíclica
Populorum progressio, o anúncio de Cristo é o primeiro e
principal factor de desenvolvimento (cf. n. 16). A verdade
primordial do amor de Deus por nós, vivida e anunciada, é que
abre a nossa existência ao acolhimento deste amor e torna
possível o desenvolvimento integral da humanidade e de cada
homem (cf. Enc.
Caritas in veritate, 8).
Essencialmente, tudo parte do Amor e tende para o Amor. O
amor gratuito de Deus é-nos dado a conhecer por meio do
anúncio do Evangelho. Se o acolhermos com fé, recebemos
aquele primeiro e indispensável contacto com o divino que é
capaz de nos fazer «enamorar do Amor», para depois habitar e
crescer neste Amor e comunicá-lo com alegria aos outros.
A propósito da relação entre fé e obras de caridade, há um
texto na Carta de São Paulo aos Efésios que a resume talvez do
melhor modo: «É pela graça que estais salvos, por meio da fé. E
isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para
que ninguém se glorie. Porque nós fomos feitos por Ele, criados
em Cristo Jesus, para vivermos na prática das boas acções que
Deus de antemão preparou para nelas caminharmos» (2, 8-10).
Daqui se deduz que toda a iniciativa salvífica vem de Deus, da
sua graça, do seu perdão acolhido na fé; mas tal iniciativa, longe
de limitar a nossa liberdade e responsabilidade, torna-as mais
autênticas e orienta-as para as obras da caridade. Estas não são
fruto principalmente do esforço humano, de que vangloriar-se,
mas nascem da própria fé, brotam da graça que Deus oferece em
abundância. Uma fé sem obras é como uma árvore sem frutos:
estas duas virtudes implicam-se mutuamente. A Quaresma, com
as indicações que dá tradicionalmente para a vida cristã, convida-nos
precisamente a alimentar a fé com uma escuta mais atenta e
prolongada da Palavra de Deus e a participação nos Sacramentos
e, ao mesmo tempo, a crescer na caridade, no amor a Deus e ao
próximo, nomeadamente através do jejum, da penitência e da
esmola.
4. Prioridade da fé, primazia da caridade
Como todo o dom de Deus, a fé e a caridade remetem para
a acção do mesmo e único Espírito Santo (cf. 1 Cor 13), aquele
Espírito que em nós clama:«Abbá! – Pai!» (Gl 4, 6), e que nos faz
dizer: «Jesus é Senhor!» (1 Cor 12, 3) e «Maranatha! – Vem,
Senhor!» (1 Cor 16, 22; Ap 22, 20).
Enquanto dom e resposta, a fé faz-nos conhecer a verdade
de Cristo como Amor encarnado e crucificado, adesão plena e
perfeita à vontade do Pai e infinita misericórdia divina para com o
próximo; a fé radica no coração e na mente a firme convicção de
que precisamente este Amor é a única realidade vitoriosa sobre o
mal e a morte. A fé convida-nos a olhar o futuro com a virtude da
esperança, na expectativa confiante de que a vitória do amor de
Cristo chegue à sua plenitude. Por sua vez, a caridade faz-nos
entrar no amor de Deus manifestado em Cristo, faz-nos aderir de
modo pessoal e existencial à doação total e sem reservas de
Jesus ao Pai e aos irmãos. Infundindo em nós a caridade, o
Espírito Santo torna-nos participantes da dedicação própria de
Jesus: filial em relação a Deus e fraterna em relação a cada ser
humano (cf. Rm 5, 5).
A relação entre estas duas virtudes é análoga à que existe
entre dois sacramentos fundamentais da Igreja: o Baptismo e a
Eucaristia. O Baptismo (sacramentum fidei) precede a Eucaristia
(sacramentum caritatis), mas está orientado para ela, que
constitui a plenitude do caminho cristão. De maneira análoga, a
fé precede a caridade, mas só se revela genuína se for coroada
por ela. Tudo inicia do acolhimento humilde da fé («saber-se
amado por Deus»), mas deve chegar à verdade da caridade
(«saber amar a Deus e ao próximo»), que permanece para
sempre, como coroamento de todas as virtudes (cf. 1 Cor 13,
13).
Caríssimos irmãos e irmãs, neste tempo de Quaresma, em
que nos preparamos para celebrar o evento da Cruz e da
Ressurreição, no qual o Amor de Deus redimiu o mundo e
iluminou a história, desejo a todos vós que vivais este tempo
precioso reavivando a fé em Jesus Cristo, para entrar no seu
próprio circuito de amor ao Pai e a cada irmão e irmã que
encontramos na nossa vida. Por isto elevo a minha oração a
Deus, enquanto invoco sobre cada um e sobre cada comunidade
a Bênção do Senhor!
Vaticano, 15 de Outubro de 2012
BENEDICTUS PP. XVI
17 janeiro 2013
oito anos ao serviço da Diocese da Guarda
Oito anos de Ministério Episcopal na Diocese da Guarda
Um balanço pastoral diante dos diocesanos
Cumpro hoje, dia 16 do corrente mês de Janeiro, oito anos de ministério episcopal ao serviço da Diocese da Guarda. De facto, em 21 de Dezembro de 2004, o então Papa e agora beato João Paulo II nomeou-me Bispo Coadjutor da Diocese da Guarda, no impedimento do Sr. D. António dos Santos, por razões de falta de saúde. Entrei na nossa Diocese no dia 16 de Janeiro de 2005, um dia muito frio, mas compensado pelo caloroso acolhimento que a Diocese fazia àquele que o Senhor lhe enviava. Compreendi o entusiasmo desta recepção inicial, quando encontrei posteriormente, entusiasmo semelhante nas visitas pastorais que, desde então, fiz a cada uma das mais de 365 paróquias da nossa Diocese. E é principalmente um primeiro balanço das visitas pastorais realizadas a cada uma das nossas paróquias, ao longo de seis anos, de 2006 a 2012, que desejo fazer, aproveitando para isso esta data. De facto, foram seis anos de contacto intenso com os párocos, as instituições paroquiais e outras da sociedade civil, através de toda a Diocese. Estive em cada uma das paróquias em dois dias diferentes – num dia de semana, para contacto com pessoas e instituições na máxima proximidade e na realidade da sua vida diária; ao domingo, para celebrar e dar orientações, que invariavelmente ficaram registadas por escrito, lidas na assembleia dominical e com recomendação de serem transcritas em livro próprio. Destaco os seguintes pontos resultado destes contactos.
1. Importância dos cooperadores pastorais de cada pároco.
Encontrei-me com todos os grupos de cooperadores pastorais existentes em cada paróquia. E nestes encontros nunca tive a presença de menos de dez elementos, mas, na esmagadora maioria deles, estiveram presentes dezenas. Se multiplicarmos o número de paróquias da Diocese por dezena e meia, encontraremos um número de cooperadores pastorais que ronda os 6 mil. A partir daqui, fico convencido de que a maior parte do nosso tempo, sobretudo de padres e diáconos, tem de ser gasto com a formação e o acompanhamento destes cooperadores pastorais, nos quais reside o grande potencial de crescimento na Fé das nossas comunidades. O esforço que queremos fazer de relançar a recepção do Concílio Vaticano II nas nossas comunidades tem de passar, em grande medida, por eles. Por isso, é minha intenção encontrar-me, de novo, com os cooperadores pastorais de cada pároco, dentro do programa de cada uma das jornadas arciprestais, em ano da Fé, que estão já calendarizadas.
2. A catequese e a formação na Fé.
Quanto á catequese da infância e adolescência, verifiquei que são muitas as paróquias que têm reduzido número de crianças e adolescentes e que, por isso, estão impossibilitadas de cumprir sozinhas este serviço que é essencial. Esta realidade que é nova, como nova é a diminuição de crianças que levou a fechar muitas das antigas escolas primárias, por decisão superior e geralmente unilateral do governo, obriga-nos a mentalizar as paróquias e as famílias para a cooperação entre si e assim podermos vir a criar centros de catequese em lugares estratégicos para servirem várias paróquias. Esta tem de ser mais uma das nossas prioridade pastorais, nos próximos anos. E já não partimos de zero, neste esforço, pois temos alguns bons exemplos de catequese a partir do arciprestado. Quanto á formação de adultos na Fé, senti que temos de continuar a fazer esforço para a consolidar, através dos grupos bíblicos constituídos e outros a que venham a criar-se. A passagem dos missionários pelas paróquias, a reconvocar para o encontro com a Palavra de Deus, de modo geral, foi um apelo sentido pelas pessoas que agora temos de continuar.
3.Celebrações dominicais
Constatei que as celebrações dominicais são muito apreciadas pelas comunidades, incluindo muitas que não são sede de paróquia. Mas também constatei que vamos ter necessidade de as redistribuir melhor pelo conjunto das paróquias confiadas ao mesmo pároco e também em espaços mais alargados, como são os arciprestados. Apesar de algum sacrifício que temos de pedir às pessoas, é nossa obrigação de sacerdotes e diáconos promover maior e melhor cooperação entre paróquias e paroquianos, também na celebração da Fé, sobretudo ao domingo. E isto torna-se necessário não só pela falta de sacerdotes, mas também pela diminuição da população. A Eucaristia dominical tem de ser, acima de tudo, uma celebração festiva, o que exige também pessoas em número suficiente. Venho das visitas pastorais com a convicção reforçada de que precisamos de continuar a trabalhar para fazer o ajustamento das celebrações dominicais e dos centros de catequese, começando por cada conjunto de paróquias confiadas ao mesmo pároco e com critérios autorizados pelo Bispo.
4. Ministros extraordinários da Comunhão e serviços da caridade
Constatei que os Ministros Extraordinários da Comunhão constituem uma realidade notável na nossa Diocese e com boa tradição. Em cada paróquia procurei deixar sempre a mensagem de que os Ministros Extraordinários da Comunhão precisam de ser completados por um grupo de Visitadores dos doentes e idosos. A função destes grupos de visitadores de doentes e idosos será fazer visitas regulares aos que se encontram nestes circunstâncias, seja em suas casas seja nos lares e também estarem atentos às necessidades materiais que possam existir. Esta será a forma de, nos próximos tempos, estendermos a caridade organizada a todas as paróquias.
5. As Comissões fabriqueiras e administração das paróquias
Poucas foram as paróquias que encontrei sem as chamadas comissões da Fábrica da Igreja, que a lei canónica chama conselhos paroquiais para os assuntos económicos. Elas são uma realidade importante nas nossas paróquias e percebi que, em geral, são capazes de compreender a legislação da Igreja sobre administração paroquial; e pareceram-me interessadas em receber formação nesse sentido.
Notei que persistem dificuldades, quando se pretende fazer a articulação delas com as mordomias das festas e com as comissões das capelas, mas as orientações que lembrei tiradas da nossa legislação diocesana sobre administração paroquial parecem ter sido compreendidas. Também senti que este é um trabalho persistente que nunca chega ao fim.
6. Movimentos e obras de apostolado
Notei algum vazio de movimentos e obras de apostolado nas nossas paróquias, nomeadamente aqueles movimentos que lhes deram muita vida há anos atrás, como sejam os cursilhos de cristandade e a acção católica. Também não senti toda a desejável presença dos serviços de apoio às famílias, como são as equipas de casais, embora o serviço de Preparação para o Matrimónio (CPM) apareça como um dado adquirido.
Notei sinais de muita presença da associação do Apostolado da Oração nas nossas Paróquias, embora mais enfraquecida do que há décadas atrás, segundo a apreciação dos associados que estiveram presentes nestas reuniões. Senti que este é um movimento que merece a nossa atenção, pois ele ainda está presente em quase todas as paróquias e constitui uma forma muito simples de alimentar a Fé das pessoas, sobretudo com o oferecimento das obras do dia e a confissão e comunhão reparadoras mensais. Eu fui lembrando que esta confissão e comunhão reparadoras mensais podem não ser exatamente na primeira sexta-feira.
Também constatei a profunda ligação das nossas Paróquias e Diocese a Nossa Senhora de Fátima, com forte tradição nas peregrinações a Fátima.
Recordei o movimento “Mensagem de Fátima” e também o dos rosaristas, com bastante representação em algumas zonas da nossa Diocese e apelei à melhor preparação do centenário das aparições.
7. Quanto ao sacramento do Crisma, sublinhei que a sua celebração deve ser predominantemente no arciprestado ou pelo menos, para já, no conjunto do grupo de Paróquias confiadas ao mesmo Pároco. Precisa de ter - e eu lembrei-o - momentos de preparação supra-paroquiais, como, por exemplo, retiros, que era bom terem calendarização e participação arciprestais. E continuando por este caminho, iremos preparando o acompanhamento dos jovens como um serviço específico de pastoral juvenil no âmbito do arciprestado, o que foi recomendado na última tomada de posse dos arciprestes.
8. Testemunho da comunhão sacerdotal
Finalmente venho destas visitas pastorais com a convicção reforçada de que o padres do mesmo arciprestado têm de dar testemunho de unidade e comunhão cada vez mais visível. Os fiéis deviam sentir que nós padres, a nível de arciprestado, funcionamos como sendo uma verdadeira equipa, sintonizados nos programas e nas práticas pastorais, mesmo sabendo que devemos continuar a dar atenção às diferenças.
Venho convencido de que precisamos de mostrar, na nossa acção de sacerdotes e na maneira como colaboramos entre nós, que os arciprestados serão as paróquias do futuro, futuro esse que já começou. E aqui lembro as orientações dadas aos arciprestes no acto da sua recente tomada de posse, em que se elencou um conjunto de serviços arciprestais que precisamos de organizar para apoiar a vida das paróquias.
Olhando em frente, depois desta experiência de contacto com a base, através das visitas pastorais, vejo que os próximos três/quatro anos têm de ter para todos nós a grande prioridade de relançar a recepção do Concílio Vaticano II, na nossa diocese e nas suas paróquias. De facto, se formos capazes de assumir com coragem o modelo de Igreja que o Concílio propõe, daremos importante passo para assegurar o futuro das nossas comunidades, sobretudo procurando promover a comunhão de ministérios ao serviço da comunhão da Igreja. O desejo expresso em assembleia geral do Clero para que se realize também uma assembleia de representantes de todo o povo de Deus presente na nossa Diocese vai funcionar como motivação para este trabalho de levar às comunidades o autêntico espírito do Concílio. E vemos aqui já a intuição fundamental do nosso programa pastoral para os próximos 3 ou 4 anos.
Olhando, agora, para o ano de 2012, dou graças a Deus pela Ordenação Episcopal do Reverendo D. António Manuel Moiteiro Ramos, na nossa Catedral, em Agosto; regozijo-me com a abertura do ano jubilar do servo de Deus D. João de Oliveira Matos, que se prolonga até Agosto próximo e coloco muita esperança na vivência do ano da Fé por todos os nossos fiéis e pelas nossas comunidades cristãs e não apenas pelo que se espera das jornadas arciprestais da Fé que nos vão ocupar até Junho próximo. Quero relevar o facto de a nossa Diocese, através da Liga dos Servos de Jesus, passar a marcar presença em Angola, com o funcionamento de uma escola preparada para receber 500 alunos e uma comunidade de irmãs. A inauguração foi em Abril passado e prevemos que o seu pleno funcionamento esteja garantido a partir do próximo mês de Fevereiro.
Que a bênção de Deus nos acompanhe nestas e noutras preocupações pastorais.
Guarda e Paço Episcopal, 16 de Janeiro de 2013
+Manuel R. Felício, Bispo da Guarda
Um balanço pastoral diante dos diocesanos
Cumpro hoje, dia 16 do corrente mês de Janeiro, oito anos de ministério episcopal ao serviço da Diocese da Guarda. De facto, em 21 de Dezembro de 2004, o então Papa e agora beato João Paulo II nomeou-me Bispo Coadjutor da Diocese da Guarda, no impedimento do Sr. D. António dos Santos, por razões de falta de saúde. Entrei na nossa Diocese no dia 16 de Janeiro de 2005, um dia muito frio, mas compensado pelo caloroso acolhimento que a Diocese fazia àquele que o Senhor lhe enviava. Compreendi o entusiasmo desta recepção inicial, quando encontrei posteriormente, entusiasmo semelhante nas visitas pastorais que, desde então, fiz a cada uma das mais de 365 paróquias da nossa Diocese. E é principalmente um primeiro balanço das visitas pastorais realizadas a cada uma das nossas paróquias, ao longo de seis anos, de 2006 a 2012, que desejo fazer, aproveitando para isso esta data. De facto, foram seis anos de contacto intenso com os párocos, as instituições paroquiais e outras da sociedade civil, através de toda a Diocese. Estive em cada uma das paróquias em dois dias diferentes – num dia de semana, para contacto com pessoas e instituições na máxima proximidade e na realidade da sua vida diária; ao domingo, para celebrar e dar orientações, que invariavelmente ficaram registadas por escrito, lidas na assembleia dominical e com recomendação de serem transcritas em livro próprio. Destaco os seguintes pontos resultado destes contactos.
1. Importância dos cooperadores pastorais de cada pároco.
Encontrei-me com todos os grupos de cooperadores pastorais existentes em cada paróquia. E nestes encontros nunca tive a presença de menos de dez elementos, mas, na esmagadora maioria deles, estiveram presentes dezenas. Se multiplicarmos o número de paróquias da Diocese por dezena e meia, encontraremos um número de cooperadores pastorais que ronda os 6 mil. A partir daqui, fico convencido de que a maior parte do nosso tempo, sobretudo de padres e diáconos, tem de ser gasto com a formação e o acompanhamento destes cooperadores pastorais, nos quais reside o grande potencial de crescimento na Fé das nossas comunidades. O esforço que queremos fazer de relançar a recepção do Concílio Vaticano II nas nossas comunidades tem de passar, em grande medida, por eles. Por isso, é minha intenção encontrar-me, de novo, com os cooperadores pastorais de cada pároco, dentro do programa de cada uma das jornadas arciprestais, em ano da Fé, que estão já calendarizadas.
2. A catequese e a formação na Fé.
Quanto á catequese da infância e adolescência, verifiquei que são muitas as paróquias que têm reduzido número de crianças e adolescentes e que, por isso, estão impossibilitadas de cumprir sozinhas este serviço que é essencial. Esta realidade que é nova, como nova é a diminuição de crianças que levou a fechar muitas das antigas escolas primárias, por decisão superior e geralmente unilateral do governo, obriga-nos a mentalizar as paróquias e as famílias para a cooperação entre si e assim podermos vir a criar centros de catequese em lugares estratégicos para servirem várias paróquias. Esta tem de ser mais uma das nossas prioridade pastorais, nos próximos anos. E já não partimos de zero, neste esforço, pois temos alguns bons exemplos de catequese a partir do arciprestado. Quanto á formação de adultos na Fé, senti que temos de continuar a fazer esforço para a consolidar, através dos grupos bíblicos constituídos e outros a que venham a criar-se. A passagem dos missionários pelas paróquias, a reconvocar para o encontro com a Palavra de Deus, de modo geral, foi um apelo sentido pelas pessoas que agora temos de continuar.
3.Celebrações dominicais
Constatei que as celebrações dominicais são muito apreciadas pelas comunidades, incluindo muitas que não são sede de paróquia. Mas também constatei que vamos ter necessidade de as redistribuir melhor pelo conjunto das paróquias confiadas ao mesmo pároco e também em espaços mais alargados, como são os arciprestados. Apesar de algum sacrifício que temos de pedir às pessoas, é nossa obrigação de sacerdotes e diáconos promover maior e melhor cooperação entre paróquias e paroquianos, também na celebração da Fé, sobretudo ao domingo. E isto torna-se necessário não só pela falta de sacerdotes, mas também pela diminuição da população. A Eucaristia dominical tem de ser, acima de tudo, uma celebração festiva, o que exige também pessoas em número suficiente. Venho das visitas pastorais com a convicção reforçada de que precisamos de continuar a trabalhar para fazer o ajustamento das celebrações dominicais e dos centros de catequese, começando por cada conjunto de paróquias confiadas ao mesmo pároco e com critérios autorizados pelo Bispo.
4. Ministros extraordinários da Comunhão e serviços da caridade
Constatei que os Ministros Extraordinários da Comunhão constituem uma realidade notável na nossa Diocese e com boa tradição. Em cada paróquia procurei deixar sempre a mensagem de que os Ministros Extraordinários da Comunhão precisam de ser completados por um grupo de Visitadores dos doentes e idosos. A função destes grupos de visitadores de doentes e idosos será fazer visitas regulares aos que se encontram nestes circunstâncias, seja em suas casas seja nos lares e também estarem atentos às necessidades materiais que possam existir. Esta será a forma de, nos próximos tempos, estendermos a caridade organizada a todas as paróquias.
5. As Comissões fabriqueiras e administração das paróquias
Poucas foram as paróquias que encontrei sem as chamadas comissões da Fábrica da Igreja, que a lei canónica chama conselhos paroquiais para os assuntos económicos. Elas são uma realidade importante nas nossas paróquias e percebi que, em geral, são capazes de compreender a legislação da Igreja sobre administração paroquial; e pareceram-me interessadas em receber formação nesse sentido.
Notei que persistem dificuldades, quando se pretende fazer a articulação delas com as mordomias das festas e com as comissões das capelas, mas as orientações que lembrei tiradas da nossa legislação diocesana sobre administração paroquial parecem ter sido compreendidas. Também senti que este é um trabalho persistente que nunca chega ao fim.
6. Movimentos e obras de apostolado
Notei algum vazio de movimentos e obras de apostolado nas nossas paróquias, nomeadamente aqueles movimentos que lhes deram muita vida há anos atrás, como sejam os cursilhos de cristandade e a acção católica. Também não senti toda a desejável presença dos serviços de apoio às famílias, como são as equipas de casais, embora o serviço de Preparação para o Matrimónio (CPM) apareça como um dado adquirido.
Notei sinais de muita presença da associação do Apostolado da Oração nas nossas Paróquias, embora mais enfraquecida do que há décadas atrás, segundo a apreciação dos associados que estiveram presentes nestas reuniões. Senti que este é um movimento que merece a nossa atenção, pois ele ainda está presente em quase todas as paróquias e constitui uma forma muito simples de alimentar a Fé das pessoas, sobretudo com o oferecimento das obras do dia e a confissão e comunhão reparadoras mensais. Eu fui lembrando que esta confissão e comunhão reparadoras mensais podem não ser exatamente na primeira sexta-feira.
Também constatei a profunda ligação das nossas Paróquias e Diocese a Nossa Senhora de Fátima, com forte tradição nas peregrinações a Fátima.
Recordei o movimento “Mensagem de Fátima” e também o dos rosaristas, com bastante representação em algumas zonas da nossa Diocese e apelei à melhor preparação do centenário das aparições.
7. Quanto ao sacramento do Crisma, sublinhei que a sua celebração deve ser predominantemente no arciprestado ou pelo menos, para já, no conjunto do grupo de Paróquias confiadas ao mesmo Pároco. Precisa de ter - e eu lembrei-o - momentos de preparação supra-paroquiais, como, por exemplo, retiros, que era bom terem calendarização e participação arciprestais. E continuando por este caminho, iremos preparando o acompanhamento dos jovens como um serviço específico de pastoral juvenil no âmbito do arciprestado, o que foi recomendado na última tomada de posse dos arciprestes.
8. Testemunho da comunhão sacerdotal
Finalmente venho destas visitas pastorais com a convicção reforçada de que o padres do mesmo arciprestado têm de dar testemunho de unidade e comunhão cada vez mais visível. Os fiéis deviam sentir que nós padres, a nível de arciprestado, funcionamos como sendo uma verdadeira equipa, sintonizados nos programas e nas práticas pastorais, mesmo sabendo que devemos continuar a dar atenção às diferenças.
Venho convencido de que precisamos de mostrar, na nossa acção de sacerdotes e na maneira como colaboramos entre nós, que os arciprestados serão as paróquias do futuro, futuro esse que já começou. E aqui lembro as orientações dadas aos arciprestes no acto da sua recente tomada de posse, em que se elencou um conjunto de serviços arciprestais que precisamos de organizar para apoiar a vida das paróquias.
Olhando em frente, depois desta experiência de contacto com a base, através das visitas pastorais, vejo que os próximos três/quatro anos têm de ter para todos nós a grande prioridade de relançar a recepção do Concílio Vaticano II, na nossa diocese e nas suas paróquias. De facto, se formos capazes de assumir com coragem o modelo de Igreja que o Concílio propõe, daremos importante passo para assegurar o futuro das nossas comunidades, sobretudo procurando promover a comunhão de ministérios ao serviço da comunhão da Igreja. O desejo expresso em assembleia geral do Clero para que se realize também uma assembleia de representantes de todo o povo de Deus presente na nossa Diocese vai funcionar como motivação para este trabalho de levar às comunidades o autêntico espírito do Concílio. E vemos aqui já a intuição fundamental do nosso programa pastoral para os próximos 3 ou 4 anos.
Olhando, agora, para o ano de 2012, dou graças a Deus pela Ordenação Episcopal do Reverendo D. António Manuel Moiteiro Ramos, na nossa Catedral, em Agosto; regozijo-me com a abertura do ano jubilar do servo de Deus D. João de Oliveira Matos, que se prolonga até Agosto próximo e coloco muita esperança na vivência do ano da Fé por todos os nossos fiéis e pelas nossas comunidades cristãs e não apenas pelo que se espera das jornadas arciprestais da Fé que nos vão ocupar até Junho próximo. Quero relevar o facto de a nossa Diocese, através da Liga dos Servos de Jesus, passar a marcar presença em Angola, com o funcionamento de uma escola preparada para receber 500 alunos e uma comunidade de irmãs. A inauguração foi em Abril passado e prevemos que o seu pleno funcionamento esteja garantido a partir do próximo mês de Fevereiro.
Que a bênção de Deus nos acompanhe nestas e noutras preocupações pastorais.
Guarda e Paço Episcopal, 16 de Janeiro de 2013
+Manuel R. Felício, Bispo da Guarda
14 dezembro 2012
Mensagem de Natal de D. Manuel Felício - 2012
"É Natal
E Deus fez-se o próximo mais próximo de nós"
Mais importante do que a vaca e o burrinho, que também expressam o
encanto e mesmo o espanto da natureza diante do Mistério de Deus feito
Homem, é o Menino Jesus no Presépio de Belém. E também o são Nossa
Senhora e S. José que O acolhem e com Ele fazem a Sagrada família de
Nazaré. Os pastores representam os mais pobres, os mais débeis da
sociedade, que nem casa têm, mas com toda a prontidão correm para Belém e
descobrem naquele Menino envolto em faixas, como qualquer outro, o
Salvador do Mundo. Não podem guardar esta surpreendente alegria só para
si, mas, com grande entusiasmo, vão pressurosos comunicá-la por toda a
parte. Por sua vez, a indiferença da cidade perante este hóspede divino,
para quem não houve lugar nas casas, faz-nos pensar na actual frieza do
nosso mundo secularizado, que teima em virar as costas a tudo o que
possa ser entendido como sinal de Deus.
Mas Deus continua igual a si mesmo, no quadro do Presépio de Belém.
Não se impõe a ninguém; somente se propõe, sempre muito discreto e
humilde, às pessoas que lhe abrem a porta da sua vida, como aconteceu
àqueles humildes pastores.
Vamos viver mais um Natal mergulhados em profunda crise, que faz sofrer pessoas, famílias e mesmo comunidades.
Há pessoas e famílias que perderam o estatuto de vida social que
tinham, porque lhes foram de repente retirados os recursos. Cresce o
número dos que não têm os bens essenciais para sobreviver, como sejam a
comida e o vestuário. O próprio acesso aos cuidados de saúde começa a
estar em risco para crescente número de pessoas, que já deixam de
comprar os remédios receitados por falta de dinheiro. Continua a haver
empresas que atravessam sérias dificuldades para manterem os postos de
trabalho que criaram. O desânimo está atingir grande número de pessoas
que se vêem fora do acesso aos bens essenciais e também à margem da
sociedade, porque sem emprego.
Felizmente que a solidariedade na partilha de bens essenciais com aqueles que não têm o necessário continua e reforçada.
Perante este quadro preocupante de dificuldades, sabemos que não
podemos esperar do governo e da administração pública aquilo que nos foi
prometido. Pelo contrário, temos a clara noção de que nos vão pedir
cada vez mais sacrifícios para pagar dívidas que nós não contraímos,
embora estejamos conscientes do princípio geral de que quem herda
activos também tem de aceitar herdar os passivos.
Perante este quadro de restrições com tendência para aumentarem, como
cristãos e comunidades cristãs não podemos cruzar os braços; antes,
pelo contrário, pondo em prática a lição do Presépio, queremos estar
perto de todos, a começar pelos mais necessitados. E há muitos que não
precisam de pão para a boca e roupa para combater o frio, mas precisam
do calor da nossa presença. Há gente a precisar do nosso tempo e da
nossa proximidade para vencer situações de desânimo provocadas pelo
desemprego, pela perda repentina do estatuto humano e social que tinham,
ou simplesmente porque estão desorientadas e não sabem o que fazer.
Queremos fazer sentir a todos os que sofrem a nossa presença
solidária, no espírito da caridade cristã, fortalecendo as redes de
proximidade que já temos e criando outras onde for necessário. Esta
queremos que seja a preocupação de todas as nossas paróquias, dos nossos
centros paroquiais e misericórdias; de todas as instituições que temos
voltadas para ajudar a resolver situações sociais mais preocupantes,
como são a Caritas, as Conferências de S. Vicente de Paulo e outras.
Queremos colaborar neste Natal, através da campanha nacional dos 10
milhões de estrelas, para fortalecer a proximidade com os que mais
precisam, segundo o espírito da caridade cristã.
À Sociedade civil em geral queremos levar a mensagem natalícia de que
as redes de proximidade e atendimento personalizado dos indivíduos e
das famílias são o caminho para construir verdadeiro bem estar para
todos. E sentimos que o próprio acto de governar tem de ser, antes de
mais, isto mesmo: criar relações de proximidade com as pessoas,
auscultá-las nos seus anseios, potencialidades e dificuldades para,
depois, com o máximo consenso possível e a cooperação do maior número,
tomar as decisões que o bem de todos impõe, definir caminhos e ajudar as
pessoas a percorrê-los com entusiasmo, mesmo que seja preciso fazer
alguns sacrifícios.
Um santo Natal, com a luz e esperança do Menino de Belém.
Guarda e Paço Episcopal, 13 de Dezembro de 2012
+Manuel R. Felício, Bispo da Guarda
07 novembro 2012
Nota episcopal para a Semana dos Seminários 2012
Vamos viver a semana dos seminários de 11 a 18 do
corrente mês de Novembro, no contexto do ano da Fé que está em curso.
Vamos pedir ao Senhor que cada sacerdote seja, de
verdade, um irmão na Fé e um servidor da Fé dos irmãos.
Sentimos que é grande o apreço do Povo de Deus pelos
sacerdotes e podemos testemunhá-lo nos muitos percursos que já fizemos e
continuamos a fazer através da nossa Diocese. Ao mesmo tempo, vamos
interpretando o sentir das comunidades sobre o que realmente esperam dos seus
padres. Esperam deles amizade, proximidade e disponibilidade, mas sobretudo o
testemunho de uma Fé autêntica, profundamente enraizada na Pessoa de Cristo e
testemunhada nas suas palavras e sobretudo na sua vida.
Para termos padres que sejam, de verdade, homens de Fé
e servidores da Fé dos irmãos, precisamos de nos empenhar todos – Bispo,
Padres, Diáconos, Comunidades Religiosas, Leigos e Povo de Deus em geral – na
promoção das vocações sacerdotais.
Precisamos depois de ter os nossos seminários com as
necessárias condições para fazerem uma séria formação sacerdotal.
De facto, os nossos dois seminários – o Seminário
Menor do Fundão e o Seminário Maior da Guarda- e o Pré-Seminário estão no
centro das preocupações da nossa Diocese, que tudo continua a fazer para lhes
garantir também as condições materiais indispensáveis, dentro do estilo de vida
simples e pobre que é recomendado a todos os sacerdotes.
Por isso, o ofertório, em todas as celebrações dominicais
realizadas na nossa Diocese, no próximo dia 18 do corrente, domingo, reverte
para a sustentação dos nossos seminários.
Esta é uma causa que merece o máximo empenho de todos
nós. À solicitude materna de Nossa Senhora confiamos todas as
iniciativas desta semana dos seminários.
Guarda e Paço Episcopal, 5 de Novembro de 2012
+Manuel R. Felício, Bispo da Guarda
19 outubro 2012
MENSAGEM DO SANTO PADRE PARA O DIA MUNDIAL DAS MISSÕES DE 2012 - 21 DE OUTUBRO 2012
86º Dia Mundial Missionário
”Chamados a fazer brilhar a Palavra da verdade” (Porta Fidei n. 6)
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FAZER BRILHAR A PALAVRA DA VERDADE
Queridos irmãos e irmãs!
Neste ano,
a celebração do Dia Mundial das Missões reveste-se dum significado
muito particular. A ocorrência do cinquentenário do inicío do Concílio
Vaticano II, a abertura do Ano da Fé e o Sínodo dos Bispos cujo tema é a nova evangelização concorrem para reafirmar a vontade da
Igreja se empenhar, com maior coragem e ardor, na missio ad gentes,
para que o Evangelho chegue até aos últimos confins da terra.
Com a participação dos Bispos católicos vindos de todos os cantos da terra, o Concílio Ecuménico Vaticano II constituiu um sinal luminoso da universalidade da Igreja pelo número tão elevado de Padres
conciliares que nele se congregou, pela primeira vez, provenientes da
Ásia, da África, da América Latina e da Oceânia. Tratava-se de Bispos missionários e Bispos autóctones, Pastores de comunidades disseminadas entre populações nãocristãs, que trouxeram para a Assembleia conciliar a imagem duma Igreja presente em todos os continentes e se fizeram intérpretes das complexas realidades do então chamado «Terceiro Mundo». Enriquecidos com a experiência própria de Pastores de Igrejas jovens e em vias de formação, apaixonados pela difusão do Reino de Deus, eles contribuíram de maneira relevante para se reafirmar a necessidade e a urgência da evangelização ad gentes e, consequentemente, colocar no centro da eclesiologia a natureza missionária da Igreja.
Eclesiologia missionária
Hoje uma tal visão não esmoreceu; antes, tem conhecido uma fecunda
reflexão teológica e pastoral e, ao mesmo tempo, repropõe-se com renovada urgência, porque aumentou o número daqueles que ainda não
conhecem Cristo. «Os homens, à espera de Cristo, constituem ainda um número imenso», afirmava o Beato João Paulo II na Encíclica Redemptoris missio sobre a validade permanente do mandato missionário; e acrescentava: «Não podemos ficar tranquilos, ao pensar nos milhões de irmãos e irmãs nossas, também eles redimidos pelo sangue de Cristo, que ignoram ainda o amor de Deus» (n. 86). Por minha vez, ao proclamar o Ano da Fé, escrevi que Cristo «hoje, como outrora, envia-nos pelas estradas do mundo para proclamar o seu Evangelho a todos os povos da terra» (Carta ap. Porta fidei, 7). E esta proclamação – como referia o Servo de Deus Paulo VI, na Exortação apostólica Evangelii nuntiandi – «não é para a Igreja uma contribuição facultativa: é um dever que lhe incumbe, por mandato do Senhor Jesus, a fim de que os homens possam acreditar e ser salvos. Sim, esta mensagem é necessária; ela é única e não poderia ser substituída» (n. 5). Por conseguinte, temos necessidade de reaver o mesmo
ímpeto apostólico das primeiras comunidades cristãs, que, apesar de pequenas e indefesas, foram capazes, com o anúncio e o testemunho, de difundir o Evangelho por todo o mundo conhecido de então.
Por isso não surpreende que tanto o Concílio Vaticano II como o Magistério sucessivo da Igreja insistam, de modo especial, sobre o mandato missionário que Cristo confiou aos seus discípulos e que deve ser empenho de todo o Povo de Deus: Bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas e leigos. O cuidado de anunciar o Evangelho em toda a terra compete, primariamente, aos Bispos enquanto responsáveis directos da evangelização no mundo, quer como membros do Colégio Episcopal, quer como Pastores das Igrejas particulares. Efectivamente, eles «foram consagrados não apenas para uma diocese, mas para a salvação de todo o mundo» (João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio, 63), sendo o Bispo «um pregador da fé, que conduz a Cristo novos discípulos» (Ad gentes, 20) e «torna presentes e como que palpáveis o espírito e o ardor missionário do Povo de Deus, de maneira que toda a diocese se torna missionária» (Ibid., 38).
A prioridade da evangelização
Assim, para um Pastor, o mandato de pregar o Evangelho não se esgota com a solicitude pela porção do Povo de Deus confiada aos seus cuidados pastorais, nem com o envio de qualquer sacerdote, leigo ou leiga fidei donum. O referido mandato deve envolver toda a actividade da Igreja particular, todos os seus sectores, em suma, todo o seu ser e operar: indicou-o claramente o Concílio Vaticano II, e o Magistério sucessivo reiterou-o com vigor. Isto exige que estilos de vida, planos pastorais e organização diocesana se adequem, constantemente, a esta dimensão fundamental de ser Igreja, sobretudo num mundo como o nosso em contínua transformação. E o mesmo vale para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica e também para os Movimentos eclesiais: todos os elementos que compõem o grande mosaico da Igreja devem sentir-se fortemente interpelados pelo mandato de pregar o
Evangelho para que Cristo seja anunciado em toda a parte. Nós, Pastores, com os religiosos, as religiosas e todos os fiéis em Cristo, devemos seguir as pegadas do apóstolo Paulo, o qual, «prisioneiro de Cristo pelos gentios» (Ef 3, 1), trabalhou, sofreu e lutou para fazer chegar o Evangelho ao meio dos gentios (cf. Col 1, 24-29), sem poupar energias, tempo e meios para dar a conhecer a Mensagem de Cristo.
Também hoje a missão ad gentes deve ser o horizonte constante e o paradigma de toda a actividade eclesial, porque a própria identidade da Igreja é constituída pela fé no Mistério de Deus, que se revelou em Cristo para nos dar a salvação, e pela missão de O testemunhar e anunciar ao mundo até ao seu regresso. Como São Paulo, devemos ser solícitos pelos que estão longe, por quantos ainda não conhecem Cristo nem experimentaram a paternidade de Deus, conscientes de que «a cooperação se alarga hoje para novas formas, não só no âmbito da ajuda económica mas também no da participação directa» na evangelização (João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio, 82).
A celebração do Ano da Fé e do Sínodo dos Bispos sobre a nova evangelização serão ocasiões propícias
para um relançamento da cooperação missionária, sobretudo nesta segunda dimensão.
Fé e anúncio
O anseio de anunciar Cristo impele-nos também a ler a história para nela vislumbrarmos os problemas, aspirações e esperanças da humanidade que Cristo deve sanar, purificar e colmatar com a sua presença. De facto, a sua Mensagem é sempre actual, penetra no próprio coração da história e é capaz de dar resposta às inquietações mais profundas de cada homem. Por isso a Igreja, em todos os seus componentes, deve estar ciente de que «os horizontes imensos da missão eclesial e a complexidade da situação presente requerem hoje modalidades renovadas para se poder comunicar eficazmente a Palavra de Deus» (Bento XVI, Exort. ap. pós-sinodal Verbum Domini, 97). Isto exige, antes de mais, uma renovada adesão de fé pessoal e comunitária ao Evangelho de Jesus Cristo, «num momento de profunda mudança como este que a humanidade está a viver» (Carta ap. Porta fidei, 8).
Com efeito, um dos obstáculos ao ímpeto da evangelização é a crise de fé, patente não apenas no mundo ocidental mas também em grande parte da humanidade, que no entanto tem fome e sede de Deus e deve ser convidada e guiada para o pão da vida e a água viva, como a Samaritana que vai ao poço de Jacob e fala com Cristo. Como narra o Evangelista João, o caso desta mulher é particularmente significativo (cf. Jo 4, 1-30): encontra Jesus, que começa por lhe pedir de beber mas depois fala-lhe duma água nova, capaz de apagar a sede para sempre. Inicialmente a mulher não entende, detém-se ao nível material, mas lentamente é guiada pelo Senhor fazendo um caminho de fé que a leva a reconhecê-Lo como o Messias. E a este propósito afirma Santo Agostinho: «Depois de ter acolhido no coração Cristo Senhor, que mais poderia fazer [aquela mulher] senão deixar ali o cântaro e correr a anunciar a boa nova?» (In Ioannis Ev.,15, 30). O encontro com Cristo como Pessoa viva que sacia a sede do coração só pode levar ao desejo de partilhar com os outros a alegria desta presença e de a dar a conhecer para que todos a possam experimentar. É preciso reavivar o entusiasmo da comunicação da fé, para se promover uma nova evangelização das comunidades e dos países de antiga tradição cristã que estão a perder a referência a Deus, e deste modo voltarem a descobrir a alegria de crer. A preocupação de evangelizar não deve jamais ficar à margem da actividade eclesial e da vida pessoal do cristão, mas há-de caracterizá-la intensamente, cientes de sermos destinatários e ao mesmo tempo missionários do Evangelho. O ponto central do anúncio permanece sempre o mesmo: o Kerigma de Cristo morto e ressuscitado pela salvação do mundo, o Kerigma do amor absoluto e total de Deus por cada homem e
cada mulher, cujo ponto culminante se situa no envio do Filho eterno e unigénito, o Senhor Jesus, que não desdenhou assumir a pobreza da nossa natureza humana, amando-a e resgatando-a do pecado e da morte por meio da oferta de Si mesmo na cruz. A fé em Deus, neste desígnio de amor realizado em Cristo é, antes de mais, um dom e um mistério que se há-de acolher no coração e na vida e pelo qual se deve agradecer sempre ao Senhor. Mas a fé é um dom que nos foi concedido para ser partilhado; é um talento recebido para que dê fruto; é uma luz que não deve ficar escondida, mas iluminar toda a casa. É o dom
mais importante que recebemos na nossa vida e que não podemos guardar para nós mesmos.
O anúncio faz-se caridade
«Ai de mim, se eu não evangelizar!»: dizia o apóstolo Paulo (1 Cor 9, 16).
Esta frase ressoa, com força, aos ouvidos de cada cristão e de cada comunidade cristã em todos os Continentes. Mesmo nas Igrejas dos territórios de missão, Igrejas em grande parte jovens e frequentemente de recente fundação, já se tornou uma dimensão conatural a missionariedade, apesar de elas mesmas precisarem ainda de missionários. Muitos sacerdotes, religiosos e religiosas, de todas as partes do mundo, numerosos leigos e até mesmo famílias inteiras deixam os seus próprios países, as suas comunidades locais e vão para outras Igrejas testemunhar e anunciar o Nome de Cristo, no qual encontra a salvação a humanidade. Trata-se duma expressão de profunda comunhão, partilha e caridade entre as Igrejas, para que cada homem possa ouvir, pela primeira vez ou de novo, o anúncio que cura e aproximar-se dos Sacramentos, fonte da verdadeira vida.
Associadas com este sinal sublime da fé que se transforma em caridade, estão as Pontifícias Obras Missionárias, instrumento ao serviço da cooperação na missão universal da Igreja no mundo, que recordo e agradeço. Através da sua acção, o anúncio do Evangelho torna-se também intervenção a favor do próximo, justiça para com os mais pobres, possibilidade de instrução nas aldeias mais distantes, assistência médica em lugares remotos, emancipação da miséria, reabilitação de quem vive marginalizado, apoio ao desenvolvimento dos povos, superação das divisões étnicas, respeito pela vida em todas as suas fases.
Queridos irmãos e irmãs, invoco sobre a obra de evangelização ad gentes, e de modo particular sobre os seus obreiros, a efusão do Espírito Santo, para que a Graça de Deus a faça avançar mais decididamente
na história do mundo. Apraz-me rezar assim com o Beato John Henry
Newman: «Acompanhai, Senhor, os vossos missionários nas terras a
evangelizar, colocai as palavras certas nos seus lábios, tornai frutuosa a sua fadiga».
Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja e Estrela da Evangelização, acompanhe todos os missionários do Evangelho.
Vaticano, 6 de Janeiro – Solenidade da Epifania do Senhor – de 2012.
BENEDICTUS PP. XVI
18 outubro 2012
Intervenção no Sínodo dos Bispos de D. António Couto, presidente da Comissão Missão e Nova Evangelização, no nosso país
Fidelidade renovada (n.º 158)
Igreja sinodal, próxima, fraterna e afectuosa
+ António José DA ROCHA COUTO
1. Viver «em sínodo» é a vocação e a missão da Igreja peregrina
e paroquial, casa de família fraterna e acolhedora no meio das casas
dos filhos e filhas de Deus, no belo dizer do Beato Papa João Paulo II, Catechesi tradendae [1979], n.º 67; Christifideles Laici [1988], n.º 26.
2. É também o retrato da Igreja-mãe de Jerusalém, saído da
paleta de tintas do Autor do Livro dos Actos dos Apóstolos (2,42-47;
4,32-35; 5,12-15), que nos mostra uma comunidade cristã bem assente em
quatro colunas: o ensino dos Apóstolos (1), a comunhão fraterna (2), a
fracção do pão (3) e a oração (4), e com ramificações em todas as casas e
em todos os corações. Trata-se de uma comunidade bela que, dia após
dia, crescia, crescia, crescia. Não admira. Era uma comunidade jovem, leve e bela, tão jovem, leve e bela, que as pessoas lutavam por entrar nela!
Igreja da anunciação
3. A vocação e missão da Igreja não é coisa própria sua, mas radica, como exemplarmente deixou escrito o Concílio Vaticano II, no seu Decreto Ad Gentes, no amor fontal do Pai, que enviou em missão o Filho e o Espírito Santo (n.º 2). É nesta missão que se enxerta a missão da Igreja, pelo que não compete à Igreja
inventar a missão ou decidir em que consista a missão. Na verdade, o
rosto da missão tem os traços do rosto de Jesus Cristo e já foi nele
luminosamente manifestado. Temos, pois, uma memória viva a fazer, viver e guardar todos os dias.
Abrindo o Evangelho de Marcos, reparamos logo que o primeiro afazer de Jesus não é pregar ou ensinar, mas ANUNCIAR, que traduz o verbo grego kêrýssô: anunciar o Evangelho
(Mc 1,14). E qual é a primeira nota que soa quando Jesus se diz com o
verbo ANUNCIAR? É, sem dúvida, a sua completa vinculação ao Pai, de quem
é o Arauto, o Mensageiro, o ANUNCIADOR (kêryx). Pura
transparência do Pai, de quem diz o que ouviu dizer (Jo 7,16-17;
8,26.38.40; 14,24; 17,8) e faz o que viu fazer (Jo 5,19; 17,4).
Recebendo todo o amor fontal do Pai, bebendo da torrente cristalina do
amor fontal do Pai (Sl 110,7), Jesus, o Filho, é pura transparência do
Pai, e pode, com toda a verdade dizer a Filipe: «Filipe […], quem me vê,
vê o Pai» (Jo 14,9).
4. Tudo, no arauto, na mensagem que transmite (kêrygma) e no estilo com que o faz, remete para o seu Senhor. A primeira nota de todo o ANUNCIADOR ou arauto ou mensageiro consiste na sua FIDELIDADE Àquele que lhe confia a mensagem que deve anunciar. É em Seu Nome que diz o que diz; é em Seu Nome que diz como diz.
5. O missionário só tem autoridade na medida em que é fiel a
Cristo e como Ele obediente, nada dizendo ou fazendo por sua conta e
risco. Só pode dizer e fazer aquilo que, por graça, lhe foi dado ouvir, aquilo que, por graça, lhe foi dado ver fazer. O missionário não pode deixar de estar vinculado a Cristo, nele configurado e transfigurado. O Papa Bento XVI disse-o assim: «Tudo se define a partir de Cristo, quanto à origem e à eficácia da missão». E acrescentou este singular desabafo: «Quanto tempo perdido, quanto trabalho adiado, por inadvertência deste ponto» (Homilia da Santa Missa, Grande Praça da Avenida dos Aliados, Porto [Portugal], 14 de Maio de 2010).
Igreja da fidelidade
6. Impõe-se ainda dizer, é mesmo necessário ainda dizer, em
jeito de conclusão ou de introdução, que aquilo que me parece ser mais
importante na expressão «nova evangelização» não é tanto a novidade de métodos, expressões ou estratégias, mas a FIDELIDADE da Igreja ao Senhor Jesus (Paulo VI, Evangelii Nuntiandi [1975], n.º 41), ao seu estilo, ao seu modo de viver, de fazer e de dizer: Dom total de si mesmo num estilo de vida pobre, humilde, despojado, feliz, apaixonado, ousado, próximo e dedicado. Passa por aqui sempre o caminho e o rosto da Igreja, que tem de fazer a memória do seu Senhor, configurando-se com o seu Senhor e transfigurando-se no seu Senhor. Impõe-se, portanto, uma verdadeira conversão do coração, e não apenas uma mudança de verniz. Sim, temos necessidade de anunciadores do Evangelho sem ouro, nem prata, nem cobre, nem bolsas, nem duas túnicas (Mt 19,9-10; Mc 6,6-8; Lc 9,3-4)… Sim, é de conversão que falo, e pergunto: por que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria,
por ser pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza
(Mt 19,22; Mc 10,22; Lc 18,23), por ser ricos e importantes?
+ António José DA ROCHA COUTO
12 outubro 2012
Nota Pastoral para o Ano da Fé (III a V partes)
3.Transmitir a Fé num mundo secularizado
Este Ano da Fé pede-nos também que procuremos formas de transmitir a outros, porventura baptizados mas mais ou menos esquecidos deste bem fundamental, de novo, a inquietação do encontro com Deus revelado na pessoa do Seu Filho único Nosso Senhor Jesus Cristo, ressuscitado e vivo no meio de nós. De facto, nós sentimos que vivemos numa sociedade marcadamente voltada para a resolução dos problemas imediatos, onde às pessoas falta tempo e disponibilidade de energias para se fixarem nas dimensões mais importantes da vida; uma sociedade onde se prometeu o Céu na terra e só a partir dos seus recursos materiais. O certo é que este Céu prometido nunca veio nem nunca virá, porque dele se retira o que é essencial à realização do ser humano – a sua relação com Deus e nele a gratuidade das relações humanas. Quando tudo na vida se subordina à satisfação de necessidades materiais e imediatas, onde as relações humanas, a começar pelas relações familiares, são prejudicadas por modelos de vida baseados só na procura do bem estar material do individuo e na competição desenfreada que daqui resulta, necessariamente faltam o tempo e as energias para o que é mais importante na vida das pessoas e consequentemente geram-se situações onde cresce a sua insatisfação e a falta de esperança, até atingir limites de angústia que não são de estranhar. Perante esta generalizada situação muito característica da cultura actual, que, todavia, não consegue desfazer a sede de Deus, entendemos a recomendação que nos faz o Santo Padre na sua carta apostólica, ao dizer: “A Igreja no seu conjunto, e os pastores nela, como Cristo, devem pôr-se a caminho para conduzirem os homens, fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a Vida, a Vida em plenitude”. É este saborear da vida em plenitude, da vida que não se esgota no consumo de bens materiais e tudo o que deles se espera, como são o poder e o prazer, que de facto está a fazer falta às pessoas. E esse é o grande dom inerente à Fé em Nosso Senhor Jesus Cristo.
4. A coragem da Fé numa cultura sem Deus.
Acontece que o mundo de hoje marcado por forte tendência para a secularidade, pretende esquecer esta fundamental dimensão da existência humana. Através de processos variados, os modelos de vida hoje na moda pretendem prescindir de Deus e do valor fundamental da Fé. E de tal maneira estão a impor-se às sociedades, sobretudo as de tipo europeu ocidental, como a nossa, que o Santo Padre sente necessidade de nos pôr de sobreaviso quanto a considerarmos a Fé como um pressuposto, passando a preocupar-nos só com as suas consequências. De facto, avisa-nos ele, “esse pressuposto não só deixou de existir como frequentemente acaba por ser negado” (ver Porta Fidei, nº 2). É também isto mesmo que a observação atenta de muitos dos nossos ambientes acaba por nos confirmar. Deus e a Fé, para crescente número de pessoas e várias compreensões do mundo, são realidades irrelevantes e, portanto, dispensáveis, chegando mesmo, algumas vezes, a serem consideradas um obstáculo para a completa autonomia da pessoa humana e para o desenvolvimento enquanto tal.
Esta atitude de recusa de Deus e da Fé que alguns tomam e em número crescente – em Portugal, segundo dados de inquérito sociológico recente, esse número atinge os 4,5% da população – não consegue, todavia, abafar a sede e a fome de Deus, que continuam a marcar a realidade do homem contemporâneo. E, por isso, havemos de estar preparados e, quanto possível, criar as condições necessárias para que também os homens e mulheres de hoje possam, como a Samaritana, abeirar-se do poço de Jacob e encontrarem em Cristo aquela água viva que eles, na realidade procuram e lhes pode matar a sede de uma vez para sempre. (Ver Porta Fidei, nº 3) O nosso contributo de cristãos baptizados e discípulos de Cristo para isso poder acontecer está principalmente em fortalecermos a nossa Fé pessoal e comunitária, alimentando-nos da Palavra de Deus e da Eucaristia. Viver com entusiasmo a relação com Deus, em Cristo, é a melhor maneira de abrirmos caminho para que outros descubram também a riqueza decisiva da Fé para as suas vidas. Queremos, também para isso, redescobrir, ao longo deste ano, a alegria de crer e reencontrar o entusiasmo de comunicar a nossa Fé.
5. Recomendações
O Santo Padre para este Ano da Fé pede-nos a todos nós, membros da Igreja, a começar pelos Bispos e outros pastores, principalmente o seguinte: que intensifiquemos a reflexão sobre a nossa Fé, concretamente sobre cada um dos artigos do símbolo dos Apóstolos; que ajudemos todos os fiéis a tornarem mais consciente e a revigorarem a sua adesão ao Evangelho, em hora de tão profundas mudanças sociais como aquela que actualmente estamos a viver; que escolhamos momentos fortes para professarmos conjuntamente a nossa Fé, seja nas catedrais e nas igrejas, seja nas casas e nas famílias.
Ora, sabemos que a Fé Cristã não é fruto somente do exercício da inteligência e da faculdade da razão, como também não resulta espontaneamente do simples exercício da ciência e da técnica.
A Fé consiste essencialmente no dom que Deus faz de si mesmo às nossas pessoas, no quadro da vida em Igreja. Ao dar-se a Si mesmo, o próprio Deus também nos comunica, com garantias da sua própria autoridade, um conjunto de verdades que são importantes para a compreensão da nossa vida pessoal e da vida do mundo. Mesmo antes de acolherem este dom de Deus nas suas próprias vidas, há muitas pessoas que, dizendo-se embora sem Fé, vivem em busca sincera do sentido último e da verdade definitiva acerca da sua existência e do mundo. Podemos considerar esta procura um verdadeiro preâmbulo da Fé.
É nossa obrigação estarmos atentos a todos os sinais da Fé e da procura de Deus que possamos descobrir na vida das pessoas para as ajudarmos, quanto possível, a seguir o caminho que as poderá levar a saborear o autêntico encontro salvador com o Senhor das nossas vidas.
É de grande significado que o Santo Padre tenha escolhido a celebração do cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II para convocar o Ano da Fé. Com isso ele quer dizer-nos que o Concilio não só não perdeu atualidade, mas sobretudo que nós precisamos de repensar as formas de viver a Fé, tanto a nível pessoal como das nossas comunidades, para as pôr de acordo com o mesmo Concílio.
E nós desejamos acolher este apelo do Santo Padre, na vida da nossa Diocese, e fazemo-lo, antes de mais, continuando o empenho de promover nos fiéis e nas comunidades o verdadeiro encontro com a Palavra de Deus para fortalecermos e purificarmos a nossa Fé.
Desejamos também iniciar, neste ano, um esforço especial para a receção do Concílio Vaticano II na nossa vida pessoal e na vida das nossas comunidades. Este esforço queremos prolongá-lo para além do Ano da Fé, promovendo o máximo envolvimento das comunidades cristãs, a começar pelos seus párocos e demais cooperadores pastorais, no processo de melhorar a nossa vivência da Fé e virmos a definir orientações próprias para as nossas comunidades nos próximos tempos, segundo as diretrizes do Concílio.
Que Nosso Senhor Jesus Cristo e Sua Mãe Maria Santíssima estejam connosco nesta caminhada de renovação da Fé. Com a sua ajuda, vamos procurar responder, da melhor maneira, ao apelo do Santo Padre para aprofundarmos e revigorarmos a nossa fé pessoal, para promovermos em outros o entusiasmo pela Pessoa de Jesus e o Seu Evangelho, para professarmos, com novo vigor, a nossa Fé e a testemunharmos no meio do mundo.
Guarda, 21 de Setembro de 2012
+ Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda
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