08 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 8


Terça-feira, 8 de Outubro de 2024

XXVII Semana do Tempo Comum – Ano B

Gl 1, 13-24; Sal 138; Lc 10, 38-42

Recordemo-nos: Deus é o Senhor da história e nela opera a Sua salvação. Ele espera a nossa colaboração, mas seria absolutamente errado se pensássemos que somos nós que temos de redimir e salvar o mundo. Hoje, todos corremos o risco de cair na falsa doutrina de Pelágio, que, no século IV, pensava que bastava arregaçar as mangas e salvar o mundo e a Igreja por nós próprios. Sem a graça. Santo Agostinho, que já tinha experimentado a superioridade da graça aquando da sua conversão, criticou Pelágio. E com razão!

Podemos mudar o mundo só com a ajuda de Deus, só confiando na Sua obra, na Sua ajuda, na Sua graça. O “Sim, nós podemos!” que os políticos têm usado como slogan motivacional nos últimos anos deve ser urgentemente complementado numa perspectiva cristã: “Sim, nós podemos – com a ajuda de Deus!”

Ontem foi a festa do Rosário e recordámos que a missão precisa de oração. Mais uma vez: não somos os donos do mundo, somos apenas colaboradores na obra de Deus. Precisamos daquele Deus a quem os Salmos já reconhecem o domínio sobre toda a terra.

Os Padres da Igreja são unânimes em afirmar que o Evangelho de hoje nunca deve ser interpretado no sentido de que Marta tenha feito algo de errado ou mesmo de mau. Marta trabalha por amor: cozinha, cuida, faz o bem ao Seu hóspede, a Jesus. Maria, pelo contrário, senta-se simplesmente aos pés de Jesus e escuta-O; está completamente concentrada n’Ele, o divino Salvador. A lição que Jesus dá a Marta é uma lição que dá também a nós, pelagianos de hoje, que pensamos que podemos fazer e resolver as coisas sozinhos.

Em Outubro, Mês das Missões, temos muitas ideias, muitas iniciativas, muitos eventos para tratar do futuro da Igreja. Isso é bom. Mas também é necessário “relaxar”. Não somos nós que criamos o futuro da Igreja, mas o próprio Senhor.

Sem os ministérios de Marta, é claro, a Igreja não funcionará, mas se faltar a prioridade da escuta e da fé em Jesus, não teremos sucesso.

07 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 7

 


Segunda-feira, 7 de Outubro de 2024

XXVII Semana do Tempo Comum – Ano B

Memória da Bem-Aventurada Virgem do Rosário

Act 1, 12-14; Lc 1, 46-55; Lc 1, 26-38

 

Outubro é o mês da missão no mundo. E é o mês do santo Rosário. Originalmente, o Rosário era uma oração meditativa inventada nos mosteiros para contemplar a vida de Jesus. Sendo uma oração muito simples, em que apenas se repetem as orações básicas “Pai Nosso”, “Avé Maria” e “Glória ao Pai”, depressa se tornou muito popular entre os Irmãos leigos. Depois, os Dominicanos difundiram a oração do Terço também entre os fiéis comuns. O cordão de oração que logo surgiu é uma ajuda e um lembrete para rezar regularmente.

 

É uma coincidência que o tema “Rosário” e “Missão no Mundo” coincidam em Outubro. Missão não é colonização; missão não é a expansão imperial de uma ideologia religiosa que se sente superior a outras. A missão é o convite humilde a abrirmo-nos a Deus, que nos quer redimir e curar. Maria abre-se a este convite, que o Anjo Gabriel lhe dirige: “Eis a serva do Senhor: faça-se em mim segundo a Tua palavra” (Lc 1, 38).

 

Em 1822, a Beata Paulina Maria Jaricot (1799-1862) fundou uma associação chamada “Obra da Propagação da Fé”. Ela queria promover a oração e recolher donativos para as missões. Em 1826, fundou o “Rosário Vivo” e, até ao fim da sua vida, reuniu mais de dois milhões de franceses que rezavam diariamente uma dezena do Terço pelas missões de todo o mundo. A obra da Beata Paulina Maria Jaricot foi elevada a “Pontifícia” pelo Papa Pio XI em 1922. É surpreendente que as Obras do Papa para as missões do mundo não tenham tido origem numa estratégia do Vaticano, mas na iniciativa de oração de uma jovem mulher, uma leiga!

 

Se queremos ajudar as missões no mundo, então temos de rezar! Sem oração não há missão, porque o Espírito Santo é – como repete o Papa Francisco – o motor da missão. Também a nossa oração do Terço se torna “cintilante” quando a recitamos com espírito missionário, quer pelos muitos que ainda não conhecem Cristo, quer por nós na Europa, especialmente os jovens, para que reconheçam o sentido último e a razão da sua vida naquele Deus a quem Maria declara: “Faça-se em mim segundo a Tua palavra” (Lc 1, 38).

06 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 6

 


Domingo, 6 de Outubro de 2024 

XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano B

Gn 2, 18-24; Sal 127; Heb 2, 9-11; Mc 10, 2-16


Neste primeiro Domingo Missionário de Outubro, reconhecemos as bênçãos que o Senhor nos quis dar desde a criação do mundo! A bênção dos esposos que se ajudam mutuamente (1ª leitura); a bênção da vida familiar e a felicidade de caminhar nos caminhos do Senhor (Salmo); a bênção da santificação trazida por Jesus Cristo que nos conduz pelo caminho do amor (2ª leitura); e, por fim, a bênção do coração dos filhos que acolhem a vida do Reino (Evangelho).


Neste Mês Missionário, celebramos, portanto, os abençoados pelo Senhor que, na sua vida consagrada ao Senhor, bem como na vida dos casais e das famílias, se empenham, em nome da sua fé, na construção do Reino de justiça, de fraternidade, de entreajuda, de caridade e de solidariedade. Através deles, Deus actua para unir os povos e ajudar os mais pobres e necessitados. Juntos, e não sozinhos, aprendemos a superar o individualismo, o egocentrismo e a dureza de coração, e a crescer no amor, na partilha, no esquecimento e no dom de nós mesmos. Estamos habituados a ver sacerdotes e comunidades religiosas empenhados na causa do Reino de Deus; o nosso tempo oferece-nos a graça de casais e famílias missionárias, e mesmo de movimentos que assumem o desafio missionário: “Ide, fazei discípulos todos os povos” (Mt 28, 19), Ide e convidai a todos para o banquete (cf. Mt 22, 9) (tema do DMM 2024). Comentando o tema escolhido pelo Santo Padre, ele disse: 


“Há dois verbos que expressam o núcleo da missão: «ide» e chamai, «convidai». Quanto ao primeiro verbo, convém recordar que antes os servos tinham sido já enviados para transmitir a mensagem do rei aos convidados (cf. 22, 3-4). Daqui se deduz que a missão é ida incansável rumo a toda a humanidade para a convidar ao encontro e à comunhão com Deus. Incansável! Deus, grande no amor e rico de misericórdia, está sempre em saída ao encontro de cada ser humano para o chamar à felicidade do Seu Reino, apesar da indiferença ou da recusa.” (Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2024).


Da sétima catequese do Papa Francisco sobre A paixão pela evangelização, recordamos o seguinte: “O Concílio diz: «A vocação cristã [...] é também, por sua própria natureza, vocação ao

apostolado» (Decr. Apostolicam actuositatem [AA], 2). Trata-se de uma chamada que é comum,

«assim como comum é a dignidade dos membros pela sua regeneração em Cristo, comum é a

graça da adopção filial, comum é a vocação à perfeição; só existe uma salvação, uma esperança e

uma caridade sem divisões» (LG, 32). É um chamamento que diz respeito tanto aos que receberam o sacramento da Ordem, como às pessoas consagradas e a todos os fiéis leigos, homens ou mulheres, é uma chamada a todos.”


A missão é uma questão de coração que acolhe o Reino. A Beata Paulina Jaricot descobriu-o na sua vida de oração e resumiu-o muito bem: “A oração é o Reino de Deus em nós. Que o nosso coração seja invadido pelo amor infinito de Jesus Cristo!” A missão é também uma questão de anunciar o Reino de Deus, que está sempre próximo e é amoroso e misericordioso.


“Jesus diz: «Pregai, anunciando que o reino dos céus está próximo» (v. 7). Eis o que se deve dizer, antes de tudo e em tudo: Deus está próximo. Mas, nunca esqueçamos isto: Deus esteve sempre próximo do povo, Ele próprio o recordou ao povo, Disse assim: “Vede, que Deus está tão próximo das nações como Eu estou próximo de vós?”. A proximidade é uma das coisas mais importantes de Deus. Há três aspectos importantes: proximidade, misericórdia e ternura.” (Catequese 4. A paixão pela evangelização).


Rezemos para que cada pessoa, cada casal, cada família encontre a bênção e a beleza do projecto de amor sobre si. Se acolhermos o Reino de Deus em nós, os nossos corações de filhos de Deus darão frutos de amor, de entreajuda, de comunhão e de unidade, e veremos a felicidade, como diz o Salmista. Que Santa Teresinha do Menino Jesus nos guie na missão de todos os baptizados durante este Mês Missionário. O Papa Francisco, inspirado por ela, diz-nos: 


“Com efeito, os missionários, dos quais Teresa é padroeira, não são apenas aqueles que vão longe, aprendem novas línguas, fazem boas obras e são bons anunciadores; não, missionário é também todo aquele que vive, onde está, como instrumento do amor de Deus; que faz tudo para que, através do seu testemunho, da sua oração, da sua intercessão, Jesus passe. Este é o zelo apostólico que, recordemos sempre, nunca se realiza por proselitismo – nunca! – ou por constrição – nunca – mas por atracção: a fé nasce por atracção, não nos tornamos cristãos por sermos forçados por alguém, não, mas por sermos tocados pelo amor” (Catequese 16. A paixão pela evangelização).


O Papa Francisco apresenta o testemunho de um leigo venezuelano que foi missionário e instrumento do amor de Deus por onde passou: o Beato José Gregório Hernández Cisneros: “Nasceu em 1864 e aprendeu a fé sobretudo com a mãe, como ele disse: «A minha mãe ensinou-me a virtude desde o berço, fez-me crescer no conhecimento de Deus e deu-me a caridade como guia». Prestemos atenção: são as mães que transmitem a fé. A fé transmite-se em dialecto, ou seja, com a linguagem das mães, aquele dialecto que as mães sabem falar com os filhos. E a vós, mães: tende o cuidado de transmitir a fé no dialecto materno.


“A caridade foi, de facto, a estrela polar que orientou a existência do Beato José Gregório: pessoa boa e afável, de temperamento alegre, era dotado de uma inteligência perspicaz; tornou-se médico, professor universitário e cientista. Mas foi sobretudo um médico próximo dos mais fracos, a ponto de ser conhecido na sua terra natal como “o médico dos pobres”. Cuidou dos pobres, sempre. À riqueza do dinheiro preferiu a riqueza do Evangelho, gastando a sua vida para ajudar os necessitados. Nos pobres, nos doentes, nos migrantes, nos que sofrem, José Gregório via Jesus. E o sucesso que nunca procurou no mundo recebeu-o, e continua a recebê-lo, do povo, que lhe chama “santo do povo”, “apóstolo da caridade”, “missionário da esperança”. Belos nomes: “Santo do povo”, “apóstolo da caridade”, “missionário da esperança”» (Catequese 20).


Ele prova que, como proclama a antífona do Evangelho deste Domingo, “se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o Seu amor em nós é perfeito” (1 Jo 4, 12).

05 outubro 2024

Outubro Missionário - dia 5

Sábado, 5 de Outubro de 2024 


XXVI Semana do Tempo Comum – Ano B

Memória facultativa de Santa Faustina Kowalska, Apóstola da Misericórdia

Gb 42, 1-3.5-6.12-17; Sal 118; Lc 10, 17-24


Eis, de novo, os 72 que o Senhor enviou. Não foram apenas os 12 Apóstolos, cujos nomes são bem conhecidos por nós e que honramos como a fundação da Igreja e a origem do ministério dos bispos e sacerdotes. Não, regressaram mais 60 discípulos anónimos. Estes anónimos e desconhecidos são todos os baptizados, independentemente do facto de terem responsabilidades especiais através da ordenação ou de uma vocação religiosa ou mesmo de um ministério eclesiástico. Cada baptizado é enviado, como sublinha repetidamente o Papa Francisco!


E os 72 têm boas notícias, porque os poderes do mal obedecem-lhes assim que dizem o nome de Jesus. Se quisermos tornar-nos uma Igreja missionária, temos de tomar consciência urgentemente: NÓS não determinamos o futuro da Igreja, somos apenas instrumentos. NÓS somos apenas instrumentos. O Senhor do céu e da terra é o nosso Salvador Jesus Cristo. Quando confiamos apenas nas nossas próprias forças, só podem acontecer coisas miseráveis e fracas! Os homens só podem produzir coisas humanas, mas Deus pode produzir coisas divinas!


Jesus concede aos Seus discípulos um poder que não vem deles, mas da Sua presença neles. Por isso, é bom recordar a santa de hoje: Santa Faustina Kowalska tinha apenas 35 anos; era uma mulher frágil, conhecida apenas por esta razão: “Tenho de me ligar completamente a Jesus, entregar-me completamente a Ele.” E assim, no seu retiro em Varsóvia, foi escolhida por Jesus para se tornar missionária da misericórdia. Ela queria que todos os homens, especialmente os afastados de Deus e os pecadores, experimentassem os raios de graça da misericórdia divina. Por isso, viveu, trabalhou, rezou e sacrificou a sua jovem vida.


Façamos um exame de consciência: estou suficientemente “apegado” a Jesus? É importante para mim que Ele seja anunciado? Desejo que todos as pessoas experimentem o amor misericordioso de Deus?

04 outubro 2024

Outubro Missionário - dia 4

 Sexta-feira, 4 de Outubro de 2024 

XXVI Semana do Tempo Comum – Ano B

Festa de São Francisco de Assis, padroeiro da Itália

Gb 38, 1.12-21; 40, 3-5; Sal 138; Lc 10, 13-16


Para nós, cristãos de hoje, não é difícil admirar São Francisco, o humilde “Poverello”. O empenhamento a favor dos pobres, dos doentes e dos deserdados é geralmente apreciado. Mesmo as pessoas que estão longe da fé e que criticam a Igreja respeitam os cristãos que lutam pelos fracos e pelos pobres.


Se não queremos apenas “admirar” Francisco exteriormente, então devemos primeiro olhar para o seu amor por Cristo. Madre Teresa, uma versão feminina de Francisco, mostrou-nos este amor por Jesus: em adoração, diante do Santíssimo Sacramento, olhando para o Filho de Deus, encontrou a força para cuidar dos moribundos que jaziam como lixo malcheiroso nas ruas de Calcutá. Francisco era tão apaixonado pelo seu amor a Jesus que chegou a ganhar estigmas no seu corpo. A oração e a Eucaristia não são um fim em si mesmas; é a forma como nos ligamos a Jesus e recebemos a força para amar como Ele amou.


Nenhum de nós tem uma glândula hormonal que produza “altruísmo” e “devoção”. Quando amamos Jesus, uma fonte se abre n’Ele e flui através de nós. Depois, Ele transforma-nos em amantes. Porquê? Porque o fogo que arde no coração de Jesus arde subitamente em nós. Dá-se uma identificação feita por Jesus: “Quem vos ouve a Mim ouve...” (Lc 10, 16).


E então a “missão” acontece de forma automática: porque se o amor de Jesus arde em ti, automaticamente tens o desejo de transmitir o Seu fogo. Isto significa que quem se liga a Jesus e se deixa ferir pelo Seu amor tem uma missão, é uma missão. S. Francisco sentiu-se chamado a pregar o Evangelho e a falar de Jesus às pessoas. Ele era tão “missionário” que, em 1219, foi ao Egipto e pregou o Senhor Jesus Cristo ao Sultão Malika Al Kamil.


São Francisco ensina-nos que a nossa missão tem origem no facto de estarmos ligados a Jesus. A Sua missão é o amor. E nós tornamo-nos parte da Sua missão através da caridade activa e do testemunho destemido.


03 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 3


Quinta-feira, 3 de Outubro de 2024 

XXVI Semana do Tempo Comum – Ano B

Jb 19, 21-27; Sal 26; Lc 10, 1-12


Jesus envia os apóstolos e notamos que aqui é mencionado um número invulgar: não são 12 apóstolos, mas 72. Todas as crianças sabem que os apóstolos eram 12. Doze representa a plenitude humana partindo das doze tribos de Israel. O número é tão importante que, após a traição e a morte de Judas, antes do Pentecostes, Matias é acrescentado como o décimo segundo. O número tem um papel importante até na Igreja actual, uma vez que o Papa assegura que haja sempre cerca de 120 cardeais com menos de 80 anos, ou seja, autorizados a eleger o Papa.


Lucas descreve o envio dos discípulos e é simplesmente surpreendente o facto de serem 72, não apenas 12, mas 5x12. É possível que o sábio Lucas esteja a aludir aos 72 sábios judeus que se diz terem traduzido a Bíblia hebraica para grego, razão pela qual esta tradução se chama simplesmente “Septuaginta”, que significa “setenta”.


72 também significa simplesmente que não são APENAS os 12 apóstolos, que são chamados por nome em muitos lugares nos Evangelhos. Isto tem a ver connosco, cristãos de hoje: é errado pensar que só os bispos, só os padres, etc. são enviados. O Magistério da Igreja, os papas, especialmente Francisco, não se cansam de dizer que TODOS os baptizados já têm uma missão em virtude do seu baptismo.


Estamos no Mês Missionário de Outubro e o Evangelho é um exame de consciência: estamos conscientes de que temos uma missão? Estamos conscientes de que dar testemunho do Evangelho pode custar-nos a honra? Pode custar-nos tempo e dinheiro? Pode custar-nos opressão? E que devemos esperar rejeição e escárnio? Deixemos de ficar de braços cruzados e de atribuir a culpa do declínio da fé cristã aos outros.


Eu próprio devo finalmente fazer alguma coisa, fui escolhido pelo Senhor desde o baptismo, sou um dos 72, a quem o Senhor continua a dizer: “Vai, Eu Te envio!”

02 outubro 2024

Dia 2 - Outubro Missionário


Quarta-feira, 2 de Outubro de 2024 

XXVI Semana do Tempo Comum – Ano B

Santos Anjos da Guarda

Ex 23, 20-23a; Sal 90; Mt 18, 1-5.10


Os primeiros vinte anos da nossa vida são passados a aprender a ser adultos. À medida que crescemos, adquirimos percepções, educação, conhecimentos e competências sem as quais este mundo não poderia funcionar. Um mundo em que só existissem crianças seria um caos e uma anarquia. O que é que Jesus quer dizer quando diz: “Se não vos tornardes como as crianças,

não entrareis no reino dos Céus” (Mt 18, 3)?


Jesus refere-Se a duas atitudes. Primeiro, a atitude de ser pequeno: não devemos imaginar nada, não devemos sentir que somos melhores do que os outros. No reino dos céus, os últimos são os primeiros e os pequenos são, na realidade, os grandes. A segunda atitude que devemos aprender com as crianças: elas deixam-se guiar. Mesmo que, por vezes, sejam teimosas e queiram fazer o que lhes apetece, sabem que precisam da ajuda da mamã e do papá, da ajuda “do alto”.


Hoje, é a Festa dos Santos Anjos da Guarda. Jesus diz das crianças que “os seus Anjos vêem continuamente o rosto de meu Pai que está nos Céus” (Mt 18, 10). A essência dos anjos é estarem centrados em Deus. A missão dos anjos para connosco é orientar-nos para Deus. A nossa mente deve estar voltada para o céu e não para a terra. O nosso olhar deve estar centrado na meta, em Deus, para que a nossa vida não se perca no labirinto da banalidade.


Como cristãos, precisamos mais do que nunca dos santos Anjos, para compreendermos melhor a nossa missão. O primeiro objectivo da Igreja deve ser o de difundir a fé em Jesus Cristo. Isto só é realizável pela Sua graça; só é possível se formos pequenos e humildes. E só podemos fazer a diferença neste mundo se nos centrarmos no verdadeiro e no essencial: no próprio Deus. Querido Anjo da Guarda, ajuda-me a tornar-me humilde e como uma criança. E, por favor, dirige todos os meus esforços para Deus!

01 outubro 2024

Outubro Missionário - Dia 1


Terça-feira, 1 de Outubro de 2024 

XXVI Semana do Tempo Comum – Ano B

Santa Teresa do Menino Jesus, Virgem e Doutora da Igreja 

Gb 3, 1-3.11-17.20-23; Sl 87; Lc 9, 51-56


Hoje, começa o Mês Missionário, que culminará no Dia Mundial das Missões. Desde há muitos anos, a “missão” é uma das principais preocupações da Igreja, dos papas e dos bispos, de muitos movimentos... A boa vontade está presente em muitos. Então porque é que se faz tão pouco? 


Talvez nos falte um pouco a determinação e a firmeza de Jesus para cumprir a Sua missão, de que ouvimos falar no Evangelho de hoje: “Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo,

Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém.” E prosseguiu a viagem com tenacidade, mas também com paciência para com aqueles que não compreendiam ou não partilhavam a Sua missão, bem como para com os aldeões samaritanos que se recusavam a aceitá-l’O. Ensinou assim aos Seus discípulos a nova mentalidade, a nova visão, as “coisas novas” no cumprimento da missão de Deus.


O Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, 22, diz que tudo na Igreja deve ser missionário. E nós? Continuamos com muitas estruturas mortas, comportamo-nos como até aqui, apesar de vermos que muitas coisas estão a morrer. Quanta energia investimos nas nossas paróquias e comunidades em coisas que não têm força missionária? Coisas que eram boas e fecundas há 50 ou 30 anos, já não o são hoje. Uma Igreja missionária deve também ter a coragem de deixar morrer as coisas que estão a morrer e ousar experimentar algo novo. Recordemos o que Jesus disse a quem O queria seguir no episódio evangélico imediatamente a seguir ao de hoje: “Deixa que os mortos sepultem os seus mortos!” (cf. Lc 9, 60).


Não é por acaso que o Mês Missionário de Outubro começa com a Festa de Santa Teresa de Lisieux, que quis seguir Jesus radicalmente quando era jovem e o fez por causa do grande amor que sentia por Ele até à sua morte prematura. Para nós, não é por acaso que Outubro não é apenas o mês da Missão Mundial, mas também o mês do Santo Rosário. De facto, para aceitarmos o convite de Nosso Senhor a uma entrega radical a Ele e à Sua missão, precisamos da oração e da intercessão da mulher que disse: “Eis aqui a serva do Senhor! Coloco-me inteiramente à disposição da missão de Deus para a humanidade.”

27 setembro 2024

Ideias-força das Jornadas Missionárias 2024


Ideias-força das Jornadas Missionárias 2024

As Jornadas Missionárias deste ano realizaram-se, como habitualmente, em Fátima, nos dias 21 e 22 de Setembro. Num ano dedicado à oração, em preparação para o Jubileu de 2025, as Jornadas tiveram como tema A oração dos discípulos missionários.

O seu principal orador e animador foi o Padre Dinh Anh Nhue Nguyen, Secretário-Geral da União Missionária Pontifícia (UMP). O Padre Anh Nhue, de 54 anos, é vietnamita, engenheiro electrónico e biblista e pertence à da Ordem dos Frades Menores Conventuais.

Convidou-nos a ir à escola de Jesus e a aprender com Ele a manter a comunhão permanente com Deus. Do leque de ensinamentos e partilha entre os cerca de 100 participantes, que tiveram lugar no auditório das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres, eis algumas das ideias-força que emergiram:


1. A oração é o princípio da missão. A compaixão pelas pessoas leva Jesus a recomendar a oração pelas vocações e a escolher os Seus discípulos para O ajudarem a cuidar delas: “Ao ver as multidões, (Jesus) compadeceu-se profundamente delas, porque estavam cansadas e abatidas como ovelhas que não têm pastor. Disse, então, aos Seus discípulos: “A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a Sua seara” (Mt 9, 36-38).

 

2. O acto de rezar é eminentemente missionário, ou como nos recordou o Papa Francisco já este ano por ocasião dos 180 anos da fundação da Obra da Infância Missionária, “A oração é a primeira acção missionária”. Conscientes deste facto, as Obras Missionárias Pontifícias têm como tarefa primeira a promoção da oração, juntamente com a promoção da informação missionária e da solidariedade entre as Igrejas. Somos missionários desde logo através da oração.

 

3. A oração está no centro do dia típico da missão de Jesus (cf. Mc 1, 21-39). Ele começa o Seu dia a rezar na sinagoga de Cafarnaum, continua a ensinar e a curar e “de manhã muito cedo, ainda escuro” (v. 35), retira-Se para rezar num lugar solitário, antes de continuar o Seu ministério nas sinagogas da Galileia. Além da oração na assembleia litúrgica das sinagogas, Jesus reza muitas vezes no monte (Mt 14, 23), sozinho e à parte (Lc 9, 18), por vezes com os salmos (cf. Mt 26, 30). Ele sente o desejo de intimidade silenciosa com o Pai, mas na Sua oração tem presente a Sua missão e a educação dos discípulos, como no baptismo (Lc 3, 21), antes da escolha dos doze (Lc 6, 12), no momento da transfiguração (Lc 9, 29) e antes do ensino do Pai Nosso (Lc 11, 1).

 

4. O Pai Nosso (Lc 11, 1-13; // Mt 6, 9-13), a única oração que Jesus ensina aos Seus discípulos, reflecte a proximidade de Jesus ao Pai, ao invocá-l’O como Pai (Abba), o termo usado pelas crianças para dirigir-se ao progenitor, que supõe carinho, mas também respeito. O Pai Nosso é definido como “a oração cristã fundamental” e “o resumo de todo o Evangelho (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2759-2772).

 

5. A Oração do Senhor, que é o paradigma da oração cristã e missionária, começa com dois pedidos paralelos: o da santificação do Seu nome e o da vinda do Seu reino. São de certa forma complementares, porque onde Deus reina, o Seu “nome”, ou seja, Ele próprio, é “santificado” e “glorificado”, o que significa reconhecido como santo e adorado como tal (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2807). Nestas invocações iniciais, vislumbra-se o grande desejo de Jesus pela causa de Deus que Ele levava constantemente no Seu coração e que agora quer transmitir aos Seus discípulos. Quem reza o Pai Nosso partilha o mesmo desejo de Deus e de Cristo, sobre a realização da missio Dei, a missão de Deus para a felicidade do homem.

 

6. A oração é a condição que nos permite ser discípulos missionários. Por isso, Jesus pede aos Seus discípulos que rezem com insistência e confiança filial. A oração é o sustentáculo da vida cristã e missionária. É nela que somos impulsionados a sair ao encontro dos outros, encontramos a força para não desanimarmos perante as dificuldades e ganhamos a coragem para falar do nome de Jesus, conscientes de que, como nos ensinou São Paulo VI, “Não haverá nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados” (Evangelii Nuntiandi, 22).

 

7. A oração dos discípulos, como a de Jesus, é orientada à missão. Depois da Ascensão de Jesus, os discípulos regressam à sala de cima (cf. Act 1, 14), e “eram assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fracção do pão e às orações (Act 2, 42). Após a libertação de Pedro e João (Act 4, 23-31), e perante o espectro da perseguição, os discípulos não pedem a Deus protecção no perigo e incolumidade perante as ameaças, mas a força para anunciarem “com total desassombro” a Palavra de Deus. A missão vale mais do que a sua vida.

 

8. O ideal cristão de orar “em todo o tempo” só é possível quando há “tempos fortes da oração cristã, em intensidade e duração” (Cf. Catecismo da Igreja Católica, 2697). A oração vocal, a meditação e a contemplação são as três expressões principais da vida de oração (CIC, 2699-2719). As principais formas da oração são: a oração de bênção e adoração, a oração de petição, a oração de intercessão, a oração de acção de graças e a oração de louvor (CIC, 2626-2649).

 

9. A oração de intercessão, através da qual abraçamos espiritualmente as necessidades e anseios da humanidade e nos comprometemos a fazer o que está ao nosso alcance para melhorar a sua sorte, tem uma grande dimensão missionária. Ela é realçada pelo Papa Francisco na Evangelii Gaudium: “Há uma forma de oração que nos incentiva particularmente a gastarmo-nos na evangelização e nos motiva a procurar o bem dos outros: é a intercessão” (EG, 281).

 

10. A Eucaristia é fonte e cume da vida e da missão da Igreja. A comunidade cristã alimenta-se na Eucaristia, que é um mistério para ser celebrado e vivido no Espírito Santo. A Eucaristia está ligada ao mandamento novo do amor, ao mistério terrível da traição e da iniquidade (Mc 14, 18) e ao compromisso indefectível de Jesus com o Reino (Mc 14, 17-25). O mistério da comunhão com Jesus, como nos mostra o episódio dos discípulos de Emaús, começa “no caminho” com a explicação das Escrituras (Lc 24, 13-35). “Uma Igreja autenticamente eucarística é uma Igreja missionária”, escreveu o Papa Bento XVI na Exortação Apostólica Pós-sinodal Sacramentum caritatis, 84. E o Papa Francisco retomou esta ideia na sua Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2024, ao dizer: “Todos somos chamados a viver mais intensamente cada Eucaristia em todas as suas dimensões, particularmente a escatológica e a missionária. Reafirmo, a este respeito, que «não podemos abeirar-nos da mesa eucarística sem nos deixarmos arrastar pelo movimento da missão que, partindo do próprio Coração de Deus, visa atingir todos os homens» (Sacramentum Caritatis, 84).

 


26 setembro 2024

Jornadas Missionárias 2024

 



Nos dias 21 e 22 de janeiro, aconteceram as Jornadas Missionárias em Fátima, precedidas, na sexta-feira, de um dia de formação com o padre Dinh Anh Nhue Nguyen, secretário-geral da União Missionária Pontifícia (UMP) que abordou a Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões 2024 nos seus três itens: “Ide e convidai”, “Banquete”, “todos”. Entre algumas reflexões deste primeiro dia constata-se que as Igrejas locais (diocesanas) já não estão abertas ao espírito missionário, sendo este uma “nota de rodapé” nos seus programas pastorais, bem como na organização paroquial, sendo evidente a necessidade de recursos humanos com entusiasmo e motivação para que as nossas comunidades cresçam em Missão. Evidenciou-se o sonho do Papa Francisco: “oxalá que todos os batizados nos disponhamos a sair para iniciar um novo movimento missionário, como nos alvores do cristianismo”.

As Jornadas Missionárias sob o tema: “A oração dos discípulos missionários”, decorreram sob um clima de profunda reflexão, fraternidade e partilha de experiências. O itinerário percorrido passou por: Oração de Jesus, enviado do Pai; Pai-Nosso, oração missionária; A Oração dos discípulos missionários de Cristo; a Oração cristã; a Eucaristia, fonte e cume da missão e da oração. Entre partilhas do orador e partilhas de reflexões, esteve presente o nosso Bispo da Guarda, D Manuel da Rocha Felício, como representante da Comissão Episcopal Missão e Nova Evangelização. O grupo da Guarda que esteve presente trouxe um alegre entusiasmo em (re)despertar o espírito missionário sabendo que o desafio está em tocar o coração de cada um.


26 fevereiro 2024

Mensagem do Bispo da Guarda - Dia Nacional da Caritas - 03 março 2024


Celebramos o Dia Nacional da Caritas no III Domingo da Quaresma, este ano, dia 3 de março.

Nesse dia e durante a semana que o precede, vamos lembrar a nós e às nossas comunidades, em espírito de verdadeira conversão quaresmal, o que Evangelho nos diz – “Só o amor transforma”.

Esta iniciativa junta toda a rede Caritas em Portugal e pretende, a partir deste tema bíblico de fundo e comum a todos, chamar a nossa atenção para a ação social e as atividades pastorais que lhe dão suporte; e, ao mesmo tempo, promover angariação de fundos para os programas que a rede Caritas em Portugal está a desenvolver. O objetivo é sensibilizar as pessoas e motivar as comunidades para o cuidado que devem ter com os que se encontram em situações mais difíceis.

Todos temos obrigação de cuidar bem uns dos outros e as comunidades têm de saber  colocar esta mesma obrigação no centro das suas preocupações e programas.

Ora,  há indicadores de que o número de pessoas em Portugal que precisam de ajuda para obviar à suas necessidades primárias não só não tem diminuído, mas, pelo contrário,  aumentou significativamente nos últimos 4 anos,  comparativamente com os 4 anos anteriores. Isto mesmo nos diz um estudo desenvolvido, no âmbito do Observatório Caritas, de que resultou o documento “Pobreza e exclusão social em Portugal”, que vai ser publicado durante a próxima semana, a  Semana Nacional da Caritas.

Segundo este estudo, mais de 500 mil pessoas em Portugal estão em “privação material severa”, dados confirmados pelo instituto Nacional de Estatística. Mais de 240 mil pessoas não têm para a sua alimentação primária, mais de 700m mil não têm pata adquirir roupa e mais de 2 milhões têm de suportar o frio do inverno, sem meios para o combater. O número dos sem abrigo, particularmente nos grandes centros urbanos, não pára de crescer, como também é preocupante a situação dos que vivem em alojamento precário.

Ora, esta Semana da Caritas há de servir, pro um lado,  para lembrarmos às comunidades a obrigação de cuidar bem dos mais carenciados, através da instituição Caritas ou de outras formas; por outro, para lembrar à sociedade em geral e aos seus poderes públicos que precisamos de políticas mais exigentes e determinadas para ajudar os mais vulneráveis. O esforço por erradicar  a pobreza mais extrema é única maneira de levar a sério a preconizada “Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-30”.

Falando para as nossas comunidades, a certeza do Evangelho de que só o amor transforma obriga-nos a ser criativos, na procura dos melhores caminhos para lhe dar cumprimento. E essa criatividade tem de ser de todos, pois nenhuma comunidade pode estar satisfeita enquanto não encontrar formas organizadas de identificar os que mais precisam para depois cuidar bem deles.

Que esta semana a todos nos desperte para sabermos cuidar bem uns dos outros.

24.2.2024

+Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda

 


14 fevereiro 2024

Mensagem da Quaresma 2024 do Bispo da Guarda, D. Manuel Felício

 

Foto: web, Pe Hugo Martins

A Quaresma - Caminhada de Fé rumo à liberdade

 

A Quaresma é sempre um forte apelo à responsabilidade das pessoas e das comunidades para reverem as suas vidas, reconhecerem os seus percursos errados e lhes darem o rumo certo.

Para nos orientar e motivar neste esforço de travessia do deserto, contamos com a iniciativa do próprio Deus, que vem ao nosso encontro, na Pessoa de Jesus e na luz e força do Espírito Santo.

Como nos lembra o Papa na sua Mensagem, a Quaresma é tempo de graça em que o deserto volta a ser o lugar do primeiro amor (Os. 2,16-17).

É tempo para revivermos o cuidado que Deus tem por todos e cada um de nós, pois Ele vem, uma e outra vez, e surpreende-nos com a sua presença e com os caminhos novos que nos aponta; e também para despertarmos em nós a obrigação de cuidarmos bem uns dos outros e da própria casa comum que habitamos. Essa mesma obrigação nos lembra o Papa, na sua Mensagem, quando convida para “o cuidado com a criação e a inclusão de quem não é visto ou marginalizado”.

Precisamos, por isso, de cultivar a vigilância sobre as nossas pessoas e sobre a vida da Igreja e do próprio mundo, quer para sentirmos o cuidado de Deus, quer para reforçarmos o nosso.

 

O encontro mais intenso com a Palavra de Deus e a oração, assim como o cuidado dos outros, especialmente quando os outros são os mais fracos e vulneráveis, têm de fazer parte do nosso programa quaresmal.

Por sua vez, a revisão de vida, através do exame de consciência mais apurado e a procura do perdão do Senhor no Sacramento da Reconciliação, são igualmente caminho que não podemos dispensar, como nos lembra este tempo forte da Quaresma. Ajudam-nos momentos de paragem, para leitura da nossa vida pessoal e comunitária, à luz da Palavra de Deus. E os retiros, recoleções e outros momentos de reflexão e oração propostos pelos programas quaresmais das comunidades, sejam de paróquias, de arciprestado ou outros, constituem oportunidades que temos de saber aproveitar.

A tradição do jejum, da oração e da esmola não perdeu nenhuma atualidade e continua a ser método válido para progredirmos na prática da caridade e, em geral, na nossa conversão. Assim nos iremos preparando para que a Páscoa seja, de verdade, a vida nova de Cristo Ressuscitado a espelhar-se, o mais possível, nas nossas vidas.

Por sua vez, as promessas batismais, que renovaremos na Noite Pascal, queremos que sejam o ponto de chegada deste percurso de renovação da Fé a que a Quaresma nos convida. Com elas professamos também a verdadeira liberdade dos filhos de Deus.

Estamos já habituados a fazer renúncia quaresmal em favor de alguma necessidade que nos é recomendada. Este ano, tendo em conta que a Liga dos Servos de Jesus celebra o seu centenário, vamos dirigir a nossa renúncia quaresmal para o centro missionário que a mesma Liga criou em Angola. Este centro missionário consta de uma escola do ensino básico que, agora sob orientação do Bispo Diocesano local, acolhe 500 alunos. Ao lado, há um centro de espiritualidade, que a pandemia obrigou a fechar. É especialmente para a reabertura deste centro missionário de espiritualidade que queremos dirigir o nosso contributo da renúncia quaresmal, contando com a cooperação dos missionários da Boa Nova.

Com a bênção de Deus e a companhia carinhosa e maternal de Nossa Senhora, procuremos viver, com muita esperança, a caminhada desta Quaresma, no espírito sinodal que nos é recomendado.

Guarda, 9.2.2024

+Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda

08 fevereiro 2024

32.º Dia Mundial do Doente - 11 fevereiro 2024 - Mensagem do Papa Francisco


 «Não é conveniente que o homem esteja só».

Cuidar do doente, cuidando das relações

 

«Não é conveniente que o homem esteja só» (Gn 2, 18). Desde o início, Deus, que é amor, criou o ser humano para a comunhão, inscrevendo no seu íntimo a dimensão das relações. Assim a nossa vida, plasmada à imagem da Trindade, é chamada a realizar-se plenamente no dinamismo das relações, da amizade e do amor mútuo. Fomos criados para estar juntos, não sozinhos. E precisamente porque este projeto de comunhão está inscrito tão profundamente no coração humano, a experiência do abandono e da solidão atemoriza-nos e olhamo-la como dolorosa e até desumana. E isto agrava-se ainda mais no tempo da fragilidade, da incerteza e da insegurança, causadas muitas vezes pelo aparecimento dalguma doença grave.

Penso, por exemplo, em todos aqueles que permaneceram terrivelmente sós durante a pandemia de Covid-19: pacientes que não podiam receber visitas, mas também enfermeiros, médicos e pessoal auxiliar, todos sobrecarregados de trabalho e confinados em repartições isoladas. E não esqueçamos quantos tiveram de enfrentar sozinhos a hora da morte, assistidos pelos profissionais de saúde, mas longe das suas famílias.

Ao mesmo tempo associo-me, pesaroso, à condição de sofrimento e solidão de quantos, por causa da guerra e suas trágicas consequências, se encontram sem apoio nem assistência: a guerra é a mais terrível das doenças sociais e as pessoas mais frágeis pagam-lhe o preço mais alto.

Contudo, é preciso assinalar que, mesmo nos países que gozam da paz e de maiores recursos, o tempo da velhice e da doença é vivido frequentemente na solidão e, por vezes, até no abandono. Esta triste realidade é consequência sobretudo da cultura do individualismo, que exalta a produção a todo o custo e cultiva o mito da eficiência, tornando-se indiferente e até implacável quando as pessoas já não têm as forças necessárias para lhe seguir o passo. Torna-se então cultura do descarte, na qual «as pessoas já não são vistas como um valor primário a respeitar e tutelar, especialmente se são pobres ou deficientes, se “ainda não servem” (como os nascituros) ou “já não servem” (como os idosos)» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 18). Esta lógica permeia também, infelizmente, certas opções políticas, que não conseguem colocar no centro a dignidade da pessoa humana com as suas carências e nem sempre proporcionam as estratégias e recursos necessários para garantir a todo o ser humano o direito fundamental à saúde e o acesso aos cuidados médicos. Ao mesmo tempo, o abandono das pessoas frágeis e a sua solidão acabam favorecidos ainda pela redução dos cuidados médicos apenas aos serviços de saúde, sem serem sapientemente acompanhados por uma «aliança terapêutica» entre médico, paciente e familiar.

Faz-nos bem voltar a ouvir esta frase bíblica: «não é conveniente que o homem esteja só». É pronunciada por Deus ao início da criação, revelando-nos assim o significado profundo do seu projeto para a humanidade, mas ao mesmo tempo também a ferida mortal do pecado, que se introduz gerando suspeitas, fraturas, divisões e consequente isolamento. Este atinge a pessoa em todas as suas relações: com Deus, consigo mesma, com o outro, com a criação. Tal isolamento faz-nos perder o significado da existência, tira-nos a alegria do amor e faz-nos provar uma sensação opressiva de solidão nas sucessivas passagens cruciais da vida.

Irmãos e irmãs, o primeiro cuidado de que necessitamos na doença é uma proximidade cheia de compaixão e ternura. Por isso, cuidar do doente significa, antes de mais nada, cuidar das suas relações, de todas as suas relações: com Deus, com os outros – familiares, amigos, profissionais de saúde –, com a criação, consigo mesmo. É possível? Sim, é possível; e todos somos chamados a empenhar-nos para que tal aconteça. Olhemos para o ícone do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37), contemplemos a sua capacidade de parar e aproximar-se, a ternura com que trata as feridas do irmão que sofre.

Recordemos esta verdade central da nossa vida: viemos ao mundo porque alguém nos acolheu, somos feitos para o amor, somos chamados à comunhão e à fraternidade. Esta dimensão do nosso ser sustém-nos sobretudo no tempo da doença e da fragilidade, e é a primeira terapia que todos, juntos, devemos adotar para curar as doenças da sociedade em que vivemos.

A vós que vos encontrais na doença, passageira ou crónica, quero dizer-vos: Não tenhais vergonha do vosso desejo de proximidade e ternura. Não o escondais e nunca penseis que sois um peso para os outros. A condição dos doentes convida-nos a todos a abrandar os ritmos exasperados em que estamos imersos e a reentrar em nós mesmos.

Nesta mudança de época que vivemos, especialmente nós, cristãos, somos chamados a adotar o olhar compassivo de Jesus. Cuidemos de quem sofre e está sozinho, porventura marginalizado e descartado. Com o amor mútuo que Cristo Senhor nos oferece na oração, especialmente na Eucaristia, tratemos das feridas da solidão e do isolamento. E deste modo cooperamos para contrastar a cultura do individualismo, da indiferença, do descarte e fazer crescer a cultura da ternura e da compaixão.

Os doentes, os frágeis, os pobres estão no coração da Igreja e devem estar também no centro das nossas solicitudes humanas e cuidados pastorais. Não o esqueçamos! E confiemo-nos a Maria Santíssima, Saúde dos Enfermos, pedindo-Lhe que interceda por nós e nos ajude a ser artífices de proximidade e de relações fraternas.

Roma – São João de Latrão, 10 de janeiro de 2024.

FRANCISCO