12 agosto 2010

Para um rosto missionário da Igreja em Portugal III

Evangelização: o primeiro e o melhor serviço


9. Na Carta Apostólica Redemptoris Missio, o Papa João Paulo II escreveu assim: «O que me anima mais a proclamar a urgência da evangelização missionária é que ela constitui o primeiro serviço que a Igreja pode prestar ao homem e à humanidade inteira, no mundo de hoje, que, apesar de conhecer realizações maravilhosas, parece ter perdido o sentido último das coisas e da sua própria existência»[14]. Neste contexto, a proclamação da Boa Nova a todos os povos e em todas as culturas continua a ser o melhor serviço que a Igreja pode prestar às pessoas. Não podemos, portanto, deixar de testemunhar que também hoje é possível, belo, bom e justo viver a existência humana de acordo com o Evangelho, e empenhar-nos, por isso e para isso, em «viver uma vida verdadeira, plena, bela, de tal modo bela, que não seria possível explicá-la se Cristo não tivesse morrido e se não tivesse verdadeiramente ressuscitado»[15].

10. «Deus amou-nos primeiro» (1 Jo 4,19). Devemos, portanto, saber ser testemunhas credíveis deste amor excessivo, superabundante, que vai para além do necessário, que revela uma misericórdia sem medida, de modo a parecer incrível, dado que não é medido pela necessidade do homem, mas pela riqueza infinita da benevolência de Deus. Compete a cada cristão fazer com que o Evangelho de Jesus Cristo se possa tornar lugar de encontro, feito de fascínio e de espanto, com o mistério da pessoa e da obra de Jesus Cristo que, mesmo sobre a Cruz, manifesta plenamente a beleza e a força do amor de Deus, como canta Santo Agostinho: «belo a dar a vida e belo a retomá‑la; belo na Cruz, belo no sepulcro, belo no céu»[16].

11. Se não estivermos entusiasmados pela profundidade e pela beleza da nossa fé, não podemos verdadeiramente transmiti-la nem aos vizinhos nem aos filhos nem às gerações futuras. Neste tempo em que, no sentir de muitos, a fé cristã deixou de ser património comum da sociedade, não bastam os discursos, os apelos morais ou os acenos genéricos aos valores cristãos, ainda que estes continuem a ser indispensáveis. É sabido, de facto, que «a mera enunciação da mensagem não chega ao mais fundo do coração da pessoa, não toca a sua liberdade, não muda a vida». Num tempo assim, «aquilo que fascina é sobretudo o encontro com pessoas crentes que, pela sua fé, atraem para a graça de Cristo, dando testemunho d’Ele»[17]. Num tempo como este, já não é suficiente reformar estruturas. É necessário converter a nossa vida, expondo-nos permanentemente àquela rajada de verbos do Senhor Jesus: «vai», «vende», «dá», «vem» e «segue-Me» (Mc 10,21), e transformarmo-nos em testemunhas de Cristo Ressuscitado no nosso ambiente e em toda a parte. Já não basta conservar as comunidades já existentes, ainda que isso seja importante. Entre tantas urgências, todos temos de reconhecer que o mais urgente é ainda e sempre a missão. É, portanto, necessário e inadiável levantar-se e partir em missão[18].


[14] JOÃO PAULO II, Redemptoris Missio, 2.

[15] F. LAMBIASI, La partecipazione dei laici alla vita e alla missione della Chiesa, CONGREGAÇÃO PARA OS BISPOS, Duc in altum. Pellegrinaggio alla Tomba di San Pietro. Incontro di Riflessione (Roma, 15-23 settembre 2008), Città del Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 2008, p. 276.

[16] SANTO AGOSTINHO, Enarrationes in Psalmos 44,3.

[17] BENTO XVI, Discurso no Encontro com os Bispos de Portugal, Fátima, 13 de Maio de 2010.

[18] BENTO XVI, Homilia da Santa Missa, Grande Praça da Avenida dos Aliados, Porto, 14 de Maio de 2010. Ver também a Homilia do Cardeal Cláudio Hummes, Prefeito da Congregação para o Clero, na Santa Missa de 9 de Junho de 2010, Conclusão do Ano Sacerdotal, Basílica de São Paulo Fora de Muros.


11 agosto 2010

Para um rosto missionário da Igreja em Portugal II

O Primado da missão do amor


5. É o amor fontal de Deus Pai, expresso na missão do Filho e do Espírito Santo, que dá à Igreja e a cada um dos baptizados-confirmados a graça da sua identidade missionária[5]. Porque «Deus é amor» (1 Jo 4,8) e nos ama com amor perfeito (1 Ts 1,4; cf. Cl 3,12; 1 Jo 4,12) e nos ama «primeiro» (1 Jo 4,19), e porque o amor é a ponte que faz passar da morte para a vida – «nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos; quem não ama, permanece na morte» (1 Jo 3,14) –, então «a causa missionária deve ser, para cada cristão e para toda a Igreja, a primeira de todas as causas», pois «não podemos ficar indiferentes ao pensar nos milhões de irmãos e de irmãs que ignoram ainda o amor de Deus»[6].

6. O ícone missionário por excelência é a figura do Bom Pastor, transparência do amor de Deus, que não abandona ninguém, mas vai à procura de todos e de cada um com paixão. O Bom Pastor cuida das ovelhas que estão perto, mas dedica-se igualmente a procurar, encontrar e chamar as que estão longe ou andam perdidas. Tendo presente esta imagem do Bom Pastor, não podemos contentar-nos com ficar à espera e cuidar dos que vêm ter connosco. Deus tomou a iniciativa da nossa salvação, amando-nos primeiro. Portanto, imitando o Bom Pastor, que foi à procura da ovelha perdida, uma comunidade evangelizadora sente-se continuamente obrigada a expandir a sua presença missionária em todo o território confiado ao seu cuidado pastoral e também na missão orientada para outros povos. É este «estilo do Senhor Jesus», Bom Pastor, que nos ama descendo ao nosso nível, dedicando a cada um a atenção toda (Mt 18,5.6.10.14; 25,40.45), sem qualquer preocupação estatística, e dando prioridade à ovelha perdida (Mt 9,36; 10,6; 15,24; 18,12; Lc 15,4), que deve impregnar e moldar o rosto da Igreja, da paróquia e de cada cristão.

7. Neste sentido, precisa, com singular afecto, João Paulo II que a paróquia é «a própria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas»[7], e que a sua vocação «é a de ser a casa de família, fraterna e acolhedora»[8], e grava esta afirmação emocionada e mobilizadora: «O homem é amado por Deus! Este é o mais simples e o mais comovente anúncio de que a Igreja é devedora ao homem»[9]. Verdadeiramente, no coração de quem aderiu ao Senhor Jesus Cristo, não pode deixar de nascer e de se desenvolver o desejo de condividir o dom recebido, de amar como fomos amados.

8. Nascerá assim uma Igreja bela, verdadeira casa de família, sensível, fraterna, acolhedora e sempre apressadamente a caminho (Lc 1,39), mãe «comovida» com as dores e alegrias dos seus filhos e filhas, cada vez menos em casa, cada vez mais fora de casa, a quem deve fazer chegar e saber envolver na mais simples e comovente notícia do amor de Deus. Ao mesmo tempo, é necessário que todos se sintam chamados e estimulados a participar, com harmonia, na missão da Igreja, «casa e escola de comunhão»[10], tendo sempre presente que «a construção da comunidade eclesial é a chave da missão»[11]. Neste sentido, cabe aos Pastores velar pela harmonia dinâmica desta construção, acolhendo e orientando a colaboração de todos, pois «os Pastores não são apenas pessoas que ocupam um cargo», mas «são responsáveis pela abertura da Igreja à acção do Espírito Santo»[12], que continua a suscitar e a animar novos movimentos, novas formas eclesiais, novos métodos e novos rumos, nova primavera no «inverno da Igreja», quantas vezes surpreendendo e pondo em causa a excessiva confiança que pusemos nas nossas estruturas e programações, distribuição de poderes e funções[13].


[5] CONCÍLIO VATICANO II, Decreto Ad Gentes (7 de Dezembro de 1965), 2.

[6] JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Redemptoris Missio (7 de Dezembro de 1990), 86.

[7] JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica pós-sinodal Christifideles Laici (30 de Dezembro de 1988), 26.

[8] JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Catechesi tradendae (16 de Outubro de 1979), 67.

[9] JOÃO PAULO II, Christifideles Laici, 34.

[10] JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (6 de Janeiro de 2001), 43.

[11] BENTO XVI, A construção da comunidade eclesial é a chave da missão, Mensagem para o 84.º Dia Missionário Mundial (24 de Outubro de 2010). A Mensagem traz a data de 6 de Fevereiro de 2010.

[12] BENTO XVI, Discurso no Encontro com os Bispos de Portugal, Fátima, 13 de Maio de 2010.

[13] BENTO XVI, Discurso no Encontro com os Bispos de Portugal, Fátima, 13 de Maio de 2010; BENTO XVI, Homilia da Santa Missa, Praça do Terreiro do Paço, Lisboa, 11 de Maio de 2010.


13 julho 2010

Para um rosto missionário da Igreja em Portugal I

AINDA A PROPÓSITO DA CARTA PASTORAL DOS BISPOS DE PORTUGAL, SOBRE A MISSÃO, VAMOS COMEÇAR HOJE, NESTE ESPAÇO, A COLOCAR A CARTA COM ALGUMAS DAS PARTES QUE NOS PARECEM MERECER A NOSSA ATENÇÃO.

CARTA PASTORAL DOS BISPOS DE PORTUGAL

«COMO EU VOS FIZ, FAZEI VÓS TAMBÉM»

Para um rosto missionário da Igreja em Portugal

Introdução

1. O Congresso Missionário Nacional, realizado em Fátima, de 3 a 7 de Setembro de 2008, pediu à Conferência Episcopal Portuguesa a elaboração de um documento-base que possa servir de orientação à Missão em Portugal, e que vá no sentido de avivar a vocação missionária de todos os cristãos.

2. Prestamos homenagem a todos aqueles que em tempos passados animaram o nosso país com o seu fulgor missionário. É, porém, um dado adquirido que tal fulgor se esvaneceu, e hoje Portugal «faz parte daqueles espaços tradicionalmente cristãos, onde, para além de uma nova evangelização, se requer, em determinados casos, a primeira evangelização», dado que, «mesmo no velho continente, existem extensas áreas sociais e culturais, onde se torna necessária uma verdadeira e própria “missão ad gentes”»[1]. Esta declaração formal qualificando também a Europa como espaço da «missão ad gentes» faz evoluir o antigo quadro de terras cristãs e terras de missão para uma nova inter‑eclesialidade missionária, onde todos somos chamados a viver e a transmitir, com ardor sempre original, os dinamismos que o encontro com o Ressuscitado e Senhor da História em nós desperta.

3. É visível, de facto, que atravessamos hoje um mundo em profunda mudança. Na cidade hodierna cruzam-se pessoas de diferentes cores, culturas, línguas e credos. A busca de melhores condições de vida tão depressa traz para a cidade pessoas de outros países e de diferentes situações sociais, culturais e religiosas, como faz partir também muitos dos seus anteriores habitantes. Dado o crescente pluralismo cultural e religioso, aliado a uma onda de secularização e individualismo e a um crescente relativismo e indiferença, já não são os campanários das igrejas que marcam o ritmo da vida das pessoas. O Evangelho de Jesus Cristo é cada vez menos conhecido. E para uma parte significativa daqueles que dizem conhecê-lo, é notório que já perdeu muito do seu encanto e significado. Este cenário é preocupante e pede, com urgência, à Igreja presente na cidade dos homens uma nova cultura de evangelização, que vá muito para além de uma simples pastoral de manutenção. Deve notar-se que, nas comunidades cristãs primitivas, o termo «Evangelho» é um nome de acção e não de estado, significa «anunciar a notícia feliz da Ressurreição de Jesus», pelo que não pode ser confundido com um livro colocado na estante que gera vidas colocadas na estante; «Evangelho» significa então «evangelização», e evangelização implica movimento e comunicação, e requer tempo, formação, inteligência, entranhas, mãos e coração.

4. O Papa Bento XVI, que em boa hora, entre os dias 11 e 14 de Maio passado, tivemos a dita de receber em Visita Apostólica ao nosso país e como peregrino de Nossa Senhora de Fátima, já nos tinha dito com suficiente clareza que não é uma ideia, ainda que seja grande a ideia, que leva alguém a fazer-se cristão, mas um encontro decisivo com a Pessoa de Cristo[2]. E nesse sentido, também nos disse o Papa que a Missão não se baseia em ideias nem em territórios (não parte de territórios nem se dirige a territórios), mas «parte do coração»[3] e dirige-se ao coração, uma vez que são «os corações os verdadeiros destinatários da actividade missionária do Povo de Deus»[4]. Neste contexto novo, alargam-se os horizontes da missão ad gentes a todas as latitudes, mas é forçoso reconhecer também que é necessário lançar mão de novos métodos.


[1] JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Ecclesia in Europa (28 de Junho de 2003), 46.

[2] BENTO XVI, Carta Encíclica Deus Caritas est (25 de Dezembro de 2005), 1.

[3] Palavras proferidas por BENTO XVI antes da Oração do Angelus do 80.º Dia Missionário Mundial (22 de Outubro de 2006).

[4] BENTO XVI, Homilia da Santa Missa, Grande Praça da Avenida dos Aliados, Porto, 14 de Maio de 2010. O Papa Bento XVI tinha já proferido palavras idênticas na Cerimónia de Encerramento do Congresso Internacional sobre o Decreto Ad Gentes no quadragésimo ano da sua promulgação (Roma, 11 de Março de 2006).

Equipa d'África

O teatro Sá da Bandeira vai ser mais uma vez palco de um concerto de Solidariedade a reverter a favor dos projectos de cooperação e desenvolvimento da Equipa d'África.

Pauta por África foi uma iniciativa dos alunos do Conservatório de Santarém com a Equipa d'África levada a cabo o ano passado.

Este ano torna-se a repetir a iniciativa.

O bilhete custa 5 euros e o valor do mesmo reverte para os projectos de cooperação e desenvolvimento em Portugal e Moçambique.

Para reservas:
96 228 66 92
equipadafrica@yahoo.com

Contamos consigo,

Juntos pela missão